domingo, 17 de maio de 2015

Beleza, O significado do bom-dia e outras histórias

O significado do bom-dia

          O Tiozinho era o sorveteiro do bairro quando eu era criança. A senhora esposa dele era uma velhinha que também vendia geladinhos na casa deles, e nos dias de calor toda a molecada arranjava umas moedas para se refrescar com os deliciosos geladinhos da dona Quitéria.
         Agora, leitor, vou confessar algo que se passava na minha cabeça, mas que sempre guardei comigo por não achar conveniente comentar, nem mesmo com os Cavaleiros.
         O sorveteiro era um cara bacana, porque conversava com todo mundo e no final da tarde passava cumprimentando a todos e às vezes até dava sorvete de graça para gente, aqueles que sobravam depois de um dia inteiro de trabalho, mas o mais intrigante era o jeito do tiozinho. Ele carregava no rosto o semblante de uma criança meio boba e sempre feliz, o sorriso nunca saía dos lábios, e o bom-dia nunca saía da boca, mesmo que fosse boa-tarde. Ele dizia com sua voz engraçada:
- Bom dia, amiguinho! Ou bom dia, menino! Bom dia, menina!
        E isso era durante todo o percurso até chegar na casa dele. Era um senhor alto (quer dizer, era, porque hoje descobri que eu era muito pequeno, ele devia ter um metro e 75, no máximo), magro, de cabelos lisos e meio grisalhos, partidos de lado, meio corcunda pela altura mal administrada.
       Ele dava bom-dia até para os cachorros, e todos gostavam muito dele, mas eu realmente acreditava que ele deveria ser louco, afinal, ninguém cumprimentava as crianças (os adultos achavam que não tínhamos sentimentos formados, ou então que não merecíamos o respeito deles). Aliás, as pessoas do bairro não tinham o bom costume de dar bom-dia uns para os outros, davam um simples aceno de cabeça, e estava tudo bem. O tiozinho inovou o conceito desse cumprimento, e apesar de quase não o ver mais pelo bairro, o seu jeito de ser nunca me saiu da cabeça, e hoje eu faço o mesmo, cumprimento até os animais, e por incrível que pareça, às vezes tenho resposta, alguns cachorros também estranham e parecem me dizer, com seus olhares de suspeitos:
- Esse cara tá maluco, nem me conhece e fica puxando conversa, eu não vou dar bola!
E nisso o cachorro vira de costa e sai abanando o rabo e balançando a cabeça negativamente! (Eu sei que é difícil acreditar, mas isso é verdade).
      O bom-dia é muito importante na vida das pessoas, digo isso porque agora vejo como ele muda o nosso dia.   Começar a manhã com um bom-dia – Se ele for verdadeiro, é claro, porque se não for fica muito na cara para quem recebe também –, traz energias positivas de uma pessoa para a outra, está no sorriso e no olhar, e ter o dom de dar vários bons-dias com o mesmo espírito do primeiro não é para qualquer um, por isso tenho tanta admiração por esse senhor.
“Bom dia, Jardim das Rosas!”
        O tiozinho é somente mais uma das figuras carismáticas e marcantes do bairro, assim como temos o Maluco Beleza, um cara que é doido de verdade e perambula pelo bairro há mais de uma década, sempre sujo, cantando músicas, dando jóia para uns que pagam a cachaça ou o cigarro de vez em quando na padaria Curitibana e mandando outros tomar no cu, quando o provocam para vê-lo ficar mais doido. Todos o conhecem, e quando vemos um maluco descendo a ladeira com ginga de Beto Barbosa (ele já usou muita droga na vida, e isso ajudou a acabar com os neurônios dele), o pessoal logo diz:
- Lá vem o Beleza, cuidado que às vezes ele tá de mau humor!




       O mau humor estava presente também nas senhoras sozinhas da região. A Nice, apelidada pelos endiabrados garotos da rua de Rabada, era uma delas. No seu quintal havia as maiores preciosidades do bairro, como o pé de goiaba, o de ameixa, as canas, as bananeiras. E todos queriam pular a cerca para roubar, já que ela nunca dava de graça e nem se pedíssemos (acho que ela tinha muita raiva da molecada que tacava pedra no vidro dela, e por isso usava como castigo a proibição), mas isso era bom, tínhamos sempre uma arriscada aventura em busca de frutas preciosas.
       A dona Celestina era outra, naquela época o bicho pegava, principalmente quando ela lavava a calçada e os garotos gritavam:
- Ô dona Celestina, me dá água para beber, se você não me der água, vou falar mal de você!
Era cabada de vassoura para todo lado, ela jogava água de mangueira, xingava os meninos, e sempre ia reclamar com as mães! Mas não tinha jeito, todos queriam cutucar a onça com vara curta, só para ver o escândalo.

Tanto uma como a outra viviam de caras fechadas, elas não tinham descoberto ainda o segredo da felicidade. Mas hoje a coisa mudou, não sei se somente os anos de experiência, mas algo mudou na vida delas, pois estão sempre sorrindo (parecendo loucas em certos momentos), às vezes ainda criam caso por besteiras, mas acho que só para não perderem o costume.

Com o Mano Brown



Mano Brown 
Aprovando o livro: 
Jardim das Rosas - Diário de um mano

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O sapo da macumbeira

O sapo da macumbeira



       Foi quando a macumbeira que morava na esquina descendo a rua João da cruz, chamou os Cavaleiros que brincavam de mamãe da rua, e nos mostrou uma nota de 10 reais. Levantou à frente de seus olhos, e abaixou rapidamente. Era uma sexta-feira 13, dia em que todos ficam esperando acontecer coisas ao estilo de dia das bruxas, a mulher fez uma cara sinistra e sorriu ao dizer:
- Vocês gostariam de ganhar essa nota?
        Ver uma nota daquelas não era comum ainda, pois o real acabava de ser lançado no plano do FHC, e nós estávamos acostumados a ganhar ou achar somente moedinhas de 5 e 10 centavos, ou no máximo 50 centavos. Ao ver aquela vermelhinha, ficamos doidos; um olhou para cara do outro e o Ricardo disse:
- É pra já!  
         Carlitos já começou com aquela euforia costumeira, mexendo as mãos, falando rápido várias coisas, já fazendo planos do que faríamos com o dinheiro, e o Ricardo perguntou:
- Mas o que temos que fazer?
- Muito simples! Eu preciso de um sapo, o maior que conseguirem, é para um trabalho, e eu não consegui encontrar em lugar nenhum.
- É agora!
E saímos naquela correria, afinal não seria difícil encontrar um sapo, não para os Cavaleiros do Apocalipse.
- Isso é uma missão de Rambo, turma. Temos que nos preparar bem, disse o Aragon.
       Fomos até o clubinho e pegamos os adereços para ficarmos realmente parecidos com os aventureiros dos filmes. Faixa na cabeça como o Rambo e guache no rosto como ele fez num daqueles filmes para se camuflar na floresta; quichute no pé para não pisar em cobras venenosas que pudéssemos encontrar no meio da floresta (pura imaginação, pois imaginávamos sempre o pior, nunca vimos nenhuma cobra venenosa no morrão, só cobras de vidro, mas talvez tivesse alguma, né, era mais divertido pensar assim).
       A busca começou divertida, primeiro procuramos os objetos de trabalho, galhos de árvores eram nossas armas. Paramos para comer as uvas japonesas que tinham perto do Tenente, e depois começamos a revirar os lixos perto do rio, abrindo todos os matinhos próximos. Encontramos vários bichinhos nojentos, mas o sapão que é bom, nada! Fomos até o morrão, mechemos no mato e o que mais se encontrava eram tatus bolinhas, lesmas e grilos. Então subimos até o alto, virando o morro e indo pro Embu, e nada dos sapos (parecia que todos tinham sumido de repente). Andamos o bairro inteiro, enfiando nossas armas em todos os buracos visíveis e perguntando para as senhoras se não tinham um sapinho em seus quintais. E nada, a missão tinha se tornado impossível!
- Que droga, a gente vai ficar sem a vermelhinha!!
- Eu precisava tanto de uma graninha!
- Já era meu carrinho novo!
- Eu tinha visto um brinquedo da hora na lojinha da Jaci, agora já era também!
- Meu pião novo!
Todos já choramingavam as coisas que não poderiam comprar com a grana fácil!
- Mas que droga, esses sapos não deveriam ter sumido logo agora que seriam usados!
- A macumbeira ia fazer trabalho ruim, né?! - Disse já de olhos arregalados o Lê.
- Ela vai colocar o nome de alguém escrito no papel, e depois costurar a boca do sapo, para a pessoa morrer, foi o que minha mãe disse que as macumbeiras fazem!
- Acho que foi bom a gente não ter achado o sapo, vai que era alguém que a gente conhece, e o cara  ia morrer seco! - Disse o Rodolfo.
 Todos arregalaram os olhos e foi cada um pra sua casa. 
       À noite, depois que fui dormir, exausto pela grande busca do dia, ouvi o coaxar de um sapo. Levantei-me correndo e fui pra trás da casa. Vi um sapo enorme, e comecei a pular atrás do infeliz, e ele dava cada salto fugindo das minhas mãos! Fiquei com medo dele jogar o leite venenoso e me cegar, mas mesmo assim não conseguia deixar de tentar agarrá-lo. Já tinha virado obsessão prender um sapo, e de repente ouvi minha mãe me gritando!
- Cassianoooooo!
- Espera mãe, agora eu cato esse danado!
 Senti minha mãe me agarrando pela gola, daí, eu comecei a me debater e berrar.
- Me larga mãe, me larga (balançando os braços e tentando me soltar)!
- Pára menino, pára com isso já!
- O sapo, eu preciso do sapo, ele vai fugir!
- Acorda, moleque! Você está sonhando!
- Quê?
     Um sonho, exatamente isso, leitor, um sonho. Quando abri os olhos estava até suado de tanto me debater na cama, eu tinha acordado todo mundo, e diz o Clorisvaldo que eu gritava dormindo:
- Eu vou te pegar, seu sapo safado!! Vem cá, danado!

        Enfim, ninguém conseguiu achar o sapo. Apesar de sempre cruzar com um dos grandes, naquela semana, e nas seguintes também, todos tinham sumido como um passe de mágica. Das duas uma: ou a macumbeira estava fazendo muitos trabalhos, ou os sapos pressentiram a morte e fugiram antes!



sábado, 13 de dezembro de 2014

O nascimento dos Sete Cavaleiros do Apocalipse

A época mais feliz da minha vida foi entre os sete e os doze anos, meia década de pura alegria, diversão, descobertas, e símbolo de uma grande amizade. Nossa periferia fora esquecida pelas grandes autoridades. Nosso mundo de fantasia abandonado, onde só Deus era a proteção. Em meio à desigualdade, sem luxo em meio ao lixo, crescíamos, crianças que sonhavam com brinquedos comprados, tristes, por muitas vezes passar o Natal em branco, sem festa, sem presentes, construindo seus meios de diversão.
Carlitos, Aragon, Lê, Gil, Rodolfo, Ricardo e o Cassiano, esse que vos escreve.
       Crescemos juntos, a diferença de idade era pouca entre todos, nos tornamos amigos nas brincadeiras de rua, tornando-nos inseparáveis. Algumas vezes chegamos a brigar, de rolar no chão, Ricardo gostava de comandar e às vezes disputava no braço, mas nada que uma noite de sono não o fizesse esquecer.
       Fizemos um pacto de amizade, como um filme a que assistimos certa vez. Como vivíamos ralados, com machucado por todo o corpo, e ninguém teve moral de cortar o dedo, só tiramos a casquinha das feridas (Nojento isso, hein! Aposto que acabou de fazer uma cara feia e deu risada por ter arrancando muitas casquinhas de machucado também!). Então juntamos os cotovelos, joelho, dedão do pé e fizemos o pacto. Nos reuníamos na rua mesmo, até que o Gil construiu o clube, um amontoado de madeira no campinho. Seria a nossa maior realização, algo só nosso.
       Descobrimos a maldade, e que o mundo não se limitava somente ao nosso bairro. Apesar de muito unidos, cada um com sua personalidade, trilhou seu caminho. Sonhos, todos tinham, e eram perfeitos, mas o dia-a-dia os foi destruindo aos poucos. É preciso ser forte, quem conseguiu passar por todo o aprendizado das periferias e das maldades da favela e saiu ileso ou com apenas arranhões, é sobrevivente e vencedor.
       Uma vez fomos à igreja, e o padre falava sobre o apocalipse. Não entendemos nada, aliás, só fomos aquele dia por anunciarem a entrega de doces no final da missa, mas concluindo, a gente gostou mesmo foi do nome “apocalipse”. Era forte, e o padre falava com tanta importância! Assim que ouvimos olhamos uns para os outros, olhos que brilhavam, acabavam de ter a mesma idéia.
- Seremos os Sete Cavaleiros do Apocalipse, disse o Carlitos.
      Era o máximo, acreditei ter me tornado mais importante pelo nome que o grupo recebera, não somente eu, todos nós começamos a andar com os peitos estufados, cabeças erguidas, andando lado a lado, para fazer pressão nos outros garotos (ganhar fama de poderosos, como um grupo forte e temido pelos outros, era nossa meta inconsciente). Uma comédia. Hoje lembro da cena e tenho vontade de rir, éramos pivetes de 7, 8 e 9 anos usando roupas feitas pela costureira, nossas mães, é claro. Eram shorts curtos, com elástico na cintura, camisas de botão abertas até em baixo, algumas listradas, outras xadrez, de bolinha, gola de camisa de gente grande e nos pés chinelo de dedo Havaiana (na época acredito que usavam o slogan “As mais baratas”, pois todo pobre tinha uma). Os penteados deixavam nossa marca, o Lê e o Aragon usavam o cabelo de lado, um era liso e o outro encaracolado. O Gil e o Ricardo pareciam um dos Jackson Five com seus black powers. O Rodolfo tinha o cabelo encaracolado, demorava a cortar e pareciam molas. O meu cabelo eu gostava comprido, até chorava quando minha mãe brincava que ia cortar. O Carlitos tinha o cabelo bem enroscado, sempre rente à cabeça, pois a mãe dele cortava, para evitar os piolhos.
       Era uma época fácil de se divertir, cada menino tinha seu carrinho de rolimã. Apostávamos corridas em descidas, desfilando pela favela com os carrinhos personalizados, o meu tinha um adesivo dos Caça-Fantasmas, a frente pintada de azul, era chapado! Não sabíamos o que era o mundo e o país. Guerra, só as do bairro, que na época eram muito poucas, algo para despertar a curiosidade. Um filme passageiro. Depois tudo voltava para os mesmos lugares.

       Assim eram os Setes Cavaleiros do Apocalipse, os grupos mais famosos do pedaço. Moleques que impunham respeito sobre os outros. A pivetada tinha inveja da gente, pois sempre estávamos unidos, até na hora das brigas, tristezas, e principalmente das alegrias. Aprendi que jamais levaríamos a vida, mas sim que seríamos levados por ela quando menos percebêssemos.


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Os mestres do último ano e as lembranças do Tenente

O tenente Ariston tinha alguns bons profissionais, outros nem tanto e outros totalmente fora do contexto docente. Lá, eu conheci a Azelha (Se eu não tiver errado ou nome, é claro), acredito que era coordenadora, pois não me lembro bem do cargo. Essa mulher foi muito marcante na minha vida, tive muitas conversas com ela, sobre meus sonhos, minhas vontades e sobre a minha vida, então, ela recomendou que eu lesse um livro chamado”Outsiders – Vidas sem rumo”. E esse livro me fez refletir muito sobre minhas atitudes e das pessoas que estavam a minha volta, também acredito que mudou para melhor a convivência com meus irmãos e o relacionamento com meus amigos. Jamais vou esquecer essa mulher, que com sua doce voz, tinha sempre uma palavra amiga e sábias palavras para acalmar o animo dos revoltados. O professor Abinei dá aulas de português. Um típico cara sem dom para o negócio, cachaceiro de fama antiga, chega de ressaca na sala, com uma cara de quem diz: - Quero que o mundo acabe em barranco, para eu morrer encostado! Um dia pediu dinheiro para apostilas de literatura e sumiu com o dinheiro da sala, não voltou nem para fechar o semestre. Todos dizem que ele gastou no boteco em cachaça. O professor Adil, de matemática, me ensinou a jogar xadrez e um jogo chamado War. Muito produtivas as aulas no ano de vestibular, muita conversa jogada fora e aprendizados culturais. A Ivane tentou ensinar inglês, foi em vão novamente. Mas, segundo o voto popular dos manos do colégio, era a professora mais charmosa e simpática, o que fez valer passar o ano batendo a cabeça no verbo to be e to have. Na real, só lembro da frase célebre: The book’s on the table! O professor de história, José Carlos, era um maluco estranho com cara de fugitivo da ditadura. Fugiu ou foi expulso da escola no meio do ano. Bem, os educadores do terceiro colegial não conseguiram ter muitos alunos na faculdade nesse novo ano! Mas o melhor foi a festa de despedida. A escola se reuniu e todos os alunos colaboraram. A banda do Silas, os Febrentos, formada pelo Fabiano, o Cristiano, o Binho, o Diego e o grupo de rap do Ricaboy apresentaram os sucessos. Cantaram músicas que embalaram nossa passagem pelo Tenente. O ex-barracão não veria a gente nem tão cedo depois que esse ano acabasse. A Adriana levou a máquina fotográfica e tirou fotos da galera. A lembrança do grupo que reinou naquele castelo, e que por pouco não o botou abaixo. E quando fomos ver a lista dos aprovados, todos caíram na gargalhada, eu e os manos de fé estávamos livres para a nova jornada. Ai de mim, disse um trovador nas aulas de literatura; Ai de mim agora, diz o Cassiano! Fizemos a correria por toda a escola. Enquanto a galera dançava um axé, relembrei os 13 anos que ali vivi. O corredor da morte no último andar, quanta gente não apanhou ali, e também não bateu. As janelas me pareciam prisão agora; cheias de grade. Passei anos sonhando com a data da saída, os sóis que vi reinar no céu, e as luas, as mesmas que fizeram meus pensamentos voarem fugindo de tantas aulas. Os professores sempre me repreenderam, houve dias em que viajei legal, e sequer ouvi os colegas. Quantos sonhos nasceram e morreram enquanto eu olhava por entre as grades... Senti-me tão saudoso naquele fim de festa, nostálgico, como dizia a Linete; Passei pelas salas em que estudei, cada cadeira que sentei. Que memória eu tinha, hein! Fui lembrando dos colegas que nas cadeiras próximas também sentaram, e daqueles que se foram eternamente. Momentos marcantes me vieram na cabeça, como aquela noite em que resolvi me declarar para uma mina nova na escola, que tinha me fisgado desde o primeiro minuto que a vi. Seu nome era Fabiana, uma morena maravilhosa que, para dificultar as coisas, parecia ser tão tímida quanto eu. (Acho que só as morenas cruzavam o meu caminho. Impressionante, não é?), isso na sexta série, quando eu estudava à tarde. Ainda não estávamos no horário de verão, portanto, lá pelas seis horas já era noite escura dentro da escola. Por ser horário de aulas não havia pessoas pelos corredores, mas o real motivo para todos ficarem quietos era o tempo. Um pouco de frio fazia com que todos permanecessem nas salas de portas fechadas, abafando o barulho das turmas pelo restante da escola. No verão todos sempre arranjavam uma desculpa para ficarem fora das salas: tomar um ar, ir ao banheiro, ataque de asma, passar mal, e depois ficavam zanzando pela escola às escondidas, porque teriam que fugir da dona Elaine ou da Zezé, as diretoras do Tenente naquele ano (porque, em outras palavras, isso ganhava o título de cabular aula). Mas, continuando (desculpa, mudo de assunto muito fácil, estou tentando corrigir isso também), a minha turma na verdade estava com aula vaga. Tinham poucos ali, o Gilvanei (Salomão), Magda, Zeferino, a Paty, a Pulguinha, a Denise, o Ratinho, o Jão, entre outros que agora esqueci os nomes. Na verdade eles não eram amigos, só colegas. A maioria da sala foi embora, e resolvi não ficar fazendo média perto deles. Permaneceram numa rodinha já empolgados com as histórias da vida alheia, e das descobertas que estavam fazendo (sugestiva essa frase, eu diria). E como um bom babaca que sou... lá estava caminhando sozinho, subindo as escadas que davam para os banheiros (A visão era feia; tudo escuro; ameaçava cair uma chuva de voar barraco, trovões e relâmpagos. Mas todo aquele clima sinistro era bom para minha imaginação). O cara da cantina tinha o rádio ligado que tocava uma música do Paulo Ricardo, “A cruz e a espada”. Eu nunca havia ouvido, ou talvez nunca tivesse prestado muita atenção nela, mas o engraçado é que naquele momento ela tocou fundo.... ....Havia um tempo em que eu vivi, um sentimento quase infantil, havia o medo e a timidez... Ela dizia mais ou menos o que eu estava sentindo, com as pernas bambas (eu sempre fico assim nesses momentos de paixão). Planejava as palavras que diria à Fabiana, talvez um verso, recitar um poema. Mas será que a mina curtia essas coisas? Melhor chegar logo falando. - Oi, Fabiana, gostei de você desde o dia que cruzou a porta da escola. Tá a fim de ficar comigo? Seria muito direto, mas pelo menos se ela estivesse a fim não ia dá tempo de fazer rodeio. Tava em alta na época a tal das indiretas, todo mundo queria jogar indireta para ficar com alguém, era mais moderno ser indireto (achei muito engraçadas essas palavras, era a primeira vez na vida que eu usava esses termos, direto, indireto, concreto.... coisas das aulas de português). Mas, enfim, também pensei em fazer como nos filmes que passavam à noite (aqueles românticos em que minha mãe acabava sempre desligando a tevê quando a moça ameaçava tirar o sutiã), olhar bem nos olhos, e fixar toda a minha vontade de beijar a boca dela, até ficar desconcertada e me perguntar o que tanto eu olhava (Isso é claro, com ela tendo a certeza, mas querendo ouvir da minha boca, por isso faria a pergunta.). A tática era a seguinte: se ela não quiser nada, vai fingir que não reparou na minha secada (reparando-a dos pés à cabeça) e vai para outro canto; se quiser, vai perguntar só para ouvir um “fica comigo!!”. E o Paulo Ricardo chorando naquelas músicas de corno. As pernas bambas, o coração acelerado (é bicho bobo, mesmo), o pensamento a mil por hora, e toca o sinal Annhammmmmmmmmmmmmmmmmmm! É hora do intervalo. Ela vai descer, linda e maravilhosa, e eu vou partir para o ataque! A última tática deu certo, fiquei até com a boca doendo de tanto beijar naquelas duas aulas (claro que nenhum de nós voltou para assistir as últimas aulas). Depois de algum tempo, não sabia nem o nome da matéria. A Fabiana era o tipo de mina que sempre muda de escola, então a paixão acabou tão repentina como surgiu, e nunca mais tive notícias dela! Passageiro como muitos outros pensamentos, também lembrei das festas de que participei. Tudo isso, eu ficava imaginando da escada que dava visão para o pátio inteiro; a escola parecia estar cheia de fantasmas, e eu sentia um arrepio o tempo inteiro (muitos que passaram por ali agora estão mortos). A festa de halloween de 1996 foi a mais cabulosa entre as temáticas, todos fantasiados de monstros. O bom desse tipo de festa era que ninguém gastava muito, usávamos roupas velhas, sangue feito com Ki-Suco, groselha, maquiagens horripilantes e roupas pretas. Muito preto dominando os corredores, vampiros, bruxas, múmias, mortos-vivos, fantasmas, etc. A procissão com o caixão, levado pelo Daniel e o Zeferino na linha de frente e o Alexandre e o Pinó na retaguarda, os sustos na sala dos horrores, a música da novela Vamp no último volume .... “Calada noite inteira, noite inteiraaaaaaa...” Os moleques aproveitavam a escuridão para dar uns amassos; as salas ficavam congestionadas de casaizinhos. Os clubers tinham invadido a região dançando as músicas eletrônicas e pregando sustos em professores, a dance music tava em alta e até os professores caíram na gandaia!! O Pinó era um dos piores, moleque magrelo de nariz arrebitado que andava pelas ruas do bairro, algumas vezes com um calango chamado Bart no ombro, outras com uma cachorra parecida com a Priscila do TV Colosso. Estava naquela turma dos destemidos que zoavam e aprontavam todas só para ver a merda acontecer. Se ele estivesse perto quando algo errado acontecia, era logo acusado, um suspeito só de sorrir para as autoridades. No dia desta festa, levaram para a escola uma garrafa de refrigerante cheia de pinga Velho Barreiro, isso depois de uma combinação com o Testinha, o Gilson, o Biano, a Sheila e o Ratinho. O Alessandro tinha levado uma bebida alcoólica com menta, que também deixou todos muito loucos. O bolo quase não foi aproveitado, pois quando essa turma chegou fez uma guerra utilizando como armas o pobre bolo (que, aliás, estava muito ruim, pois a Gilcéia e a Ivone tinham feito com massa de caixinha, e não conseguiram achar o ponto certo. Ficou com gosto de cru, sem contar a cobertura feita com manteiga vegetal e açúcar. Ele chegou na escola todo despedaçado porque veio no Fusca do Washigton, balançando até chegar no Tenente). A guerra até que foi engraçada, tinha gente com pedaço de bolo dentro do nariz, e a turma bêbada rindo como hienas, caídos pelos cantos da escola. Tudo isso rendeu a proibição de festas como aquela por um bom tempo. A sargenta Elaine era linha-dura e tinha a fama de ser a mulher mais brava que o Tenente já conheceu. Todos os alunos tinham medo dela, diziam que ela guardava uma cinta na gaveta (ela mesma contava para nós alunos quando ia nos visitar, só para botar banca,) e utilizava nos encapetados que iam parar na sala dela para o interrogatório final antes de assinar o livro negro. O Pinó visitou tantas vezes essa sala que já havia se tornado íntimo dela, dizia ele que tomava até cafezinho quando era obrigado a ir pra lá. Mas do castigo eles não se livravam, tanto ele como o Testinha e o Biano, já passaram os intervalos limpando as paredes pichadas. O Pinó já teve como castigo a obrigação de lavar banheiro, ajudar a lavar as canecas com as merendeiras, limpar lousa de sala, varrer pátio, e isso era apenas alguns dos castigos aplicados aos engraçadinhos que pichavam a escola. E as brigas que rolaram... No corredor do último andar a maior lembrança foi quando a Valquíria rolou no chão com outra menina que nunca consegui guardar o nome. A Valquíria era uma menina de 11 anos, mas muito invocada, e partia pra briga com qualquer um que provocasse. Aquela briga tinha sido por causa de um menino que as duas estavam paquerando!! Briga de mulher era sempre a mesma coisa, arranhão pelo rosto, puxão de cabelo, tapa na cara. A escola inteira parou para ver, e as torcidas só sabiam gritar, separar que é bom ninguém se atreveu; até chegar a sargenta Elaine e solicitar que as duas a acompanhassem até a diretoria, acabando com o show!! E nas semanas seguintes as duas ficavam se estranhando pelos corredores como cachorros zangados. Tinha o Boi, um rapaz que tinha problemas mentais e ficava perambulando pelas ruas do bairro. Ele ficava próximo da escola e começava a tacar pedras nas janelas; a molecada não perdoava e ficava xingando ele para que ficasse mais nervoso. Quando o Tenente ainda era o Barracão, feito de madeira, ele abrigava, além dos alunos, uma porção de ratos que ficavam correndo pelas salas enquanto os professores tentavam dar aulas. O professor Moacir contava muitas histórias sobre essa época. Era engraçado porque em dias de chuva a coisa ficava feia, tanto pelas goteiras como pelos ratos, pois a escola ficava de frente para um matagal. Era hora da partida. Abri os olhos e vi o corredor vazio novamente, olhos que vidraram na escuridão do céu paulista, negro por falta de estrelas, falta de estrelas por tanta poluição, e as poucas que resistiam com sua força formavam as constelações mais famosas. Nunca soube identificá-las corretamente, mas sabia que lá estavam Andrômeda, Pegasus, Aquarius, Taurus, um grande conhecimento adquirido com o maravilhoso e educativo Cavaleiros do Zodíaco, desenho japonês que virou febre entre a molecada, e até as meninas gostavam, pois tinha as amazonas guerreiras, Poseidon, Athenas, sucesso absoluto. Então, como eu escrevia antes, na escuridão do céu eu dizia para mim que enfim chegara o tempo das mudanças. Devíamos erguer a cabeça e pôr o mundo aos nossos pés. Eu precisava rir da vida antes que ela começasse a rir de mim e o sorriso virasse gargalhada. O bom era entender a piada e rir junto com ela, mas se não desse, o jeito era segurar firme e não deixá-la fazer gol em mim. É chegada a hora. Nem sempre sofrida Dever ser a partida A música cantada agora Deve ser lembrada Como passagens em nossa história Montanhas escaladas Sofrimentos em silêncio Tombos marcantes Mensagens significantes Acabou a festa, senti o peito apertando. Enfim, saí do colegial. Mas não deveria sentir muita tristeza, pois todos os colegas também sairiam junto. Os companheiros buscavam novos rumos (ou os velhos rumos dos pais) e cada um tinha que olhar para frente, e não para trás. Alguém me disse uma vez que o certo é olhar para frente e não ter medo de arriscar; só assim as coisas acontecem. Sou Cassiano, formado na Escola Estadual Tenente Ariston de Oliveira, sem experiências que contem no currículo, sem cursos profissionalizantes ou de línguas. Desempregado e cheio de vontade de trabalhar em qualquer empresa. Próximas aventuras no capítulo seguinte... ***