A época mais feliz da minha vida foi
entre os sete e os doze anos, meia década de pura alegria, diversão,
descobertas, e símbolo de uma grande amizade. Nossa periferia fora esquecida
pelas grandes autoridades. Nosso mundo de fantasia abandonado, onde só Deus era
a proteção. Em meio à desigualdade, sem luxo em meio ao lixo, crescíamos,
crianças que sonhavam com brinquedos comprados, tristes, por muitas vezes
passar o Natal em branco, sem festa, sem presentes, construindo seus meios de
diversão.
Carlitos,
Aragon, Lê, Gil, Rodolfo, Ricardo e o Cassiano, esse que vos escreve.
Crescemos juntos, a diferença de idade era pouca entre todos, nos
tornamos amigos nas brincadeiras de rua, tornando-nos inseparáveis. Algumas
vezes chegamos a brigar, de rolar no chão, Ricardo gostava de comandar e às
vezes disputava no braço, mas nada que uma noite de sono não o fizesse
esquecer.
Fizemos um pacto de amizade, como um filme a que assistimos certa vez.
Como vivíamos ralados, com machucado por todo o corpo, e ninguém teve moral de
cortar o dedo, só tiramos a casquinha das feridas (Nojento isso, hein! Aposto
que acabou de fazer uma cara feia e deu risada por ter arrancando muitas
casquinhas de machucado também!). Então juntamos os cotovelos, joelho, dedão do
pé e fizemos o pacto. Nos reuníamos na rua mesmo, até que o Gil construiu o
clube, um amontoado de madeira no campinho. Seria a nossa maior realização,
algo só nosso.
Descobrimos a maldade, e que o mundo não se limitava somente ao nosso
bairro. Apesar de muito unidos, cada um com sua personalidade, trilhou seu
caminho. Sonhos, todos tinham, e eram perfeitos, mas o dia-a-dia os foi
destruindo aos poucos. É preciso ser forte, quem conseguiu passar por todo o
aprendizado das periferias e das maldades da favela e saiu ileso ou com apenas
arranhões, é sobrevivente e vencedor.
Uma vez fomos à igreja, e o padre falava sobre o apocalipse. Não
entendemos nada, aliás, só fomos aquele dia por anunciarem a entrega de doces
no final da missa, mas concluindo, a gente gostou mesmo foi do nome
“apocalipse”. Era forte, e o padre falava com tanta importância! Assim que
ouvimos olhamos uns para os outros, olhos que brilhavam, acabavam de ter a
mesma idéia.
- Seremos os
Sete Cavaleiros do Apocalipse, disse o Carlitos.
Era o máximo, acreditei ter me tornado mais importante pelo nome que o
grupo recebera, não somente eu, todos nós começamos a andar com os peitos
estufados, cabeças erguidas, andando lado a lado, para fazer pressão nos outros
garotos (ganhar fama de poderosos, como um grupo forte e temido pelos outros,
era nossa meta inconsciente). Uma comédia. Hoje lembro da cena e tenho vontade
de rir, éramos pivetes de 7, 8 e 9 anos usando roupas feitas pela costureira,
nossas mães, é claro. Eram shorts curtos, com elástico na cintura, camisas de
botão abertas até em baixo, algumas listradas, outras xadrez, de bolinha, gola
de camisa de gente grande e nos pés chinelo de dedo Havaiana (na época acredito
que usavam o slogan “As mais baratas”, pois todo pobre tinha uma). Os penteados
deixavam nossa marca, o Lê e o Aragon usavam o cabelo de lado, um era liso e o
outro encaracolado. O Gil e o Ricardo pareciam um dos Jackson Five com seus black powers. O Rodolfo tinha o cabelo
encaracolado, demorava a cortar e pareciam molas. O meu cabelo eu gostava
comprido, até chorava quando minha mãe brincava que ia cortar. O Carlitos tinha
o cabelo bem enroscado, sempre rente à cabeça, pois a mãe dele cortava, para
evitar os piolhos.
Era uma época fácil de se divertir, cada menino tinha seu carrinho de
rolimã. Apostávamos corridas em descidas, desfilando pela favela com os
carrinhos personalizados, o meu tinha um adesivo dos Caça-Fantasmas, a frente
pintada de azul, era chapado! Não sabíamos o que era o mundo e o país. Guerra,
só as do bairro, que na época eram muito poucas, algo para despertar a
curiosidade. Um filme passageiro. Depois tudo voltava para os mesmos lugares.
Assim eram os Setes Cavaleiros do Apocalipse, os grupos mais famosos do
pedaço. Moleques que impunham respeito sobre os outros. A pivetada tinha inveja
da gente, pois sempre estávamos unidos, até na hora das brigas, tristezas, e
principalmente das alegrias. Aprendi que jamais levaríamos a vida, mas sim que
seríamos levados por ela quando menos percebêssemos.
