sábado, 29 de novembro de 2008

Cheiro de lembranças

A vida devia mesmo ter trilha sonora. A minha, neste momento, seria um misto de passado e presente tentando inventar o futuro. Hoje é um dia lindo, cheio de nuvens no céu que servem como filtro da luz que ilumina está manhã silenciosa na periferia do Rosa. Quem não gosta das nuvens no céu é porque não viu sua brincadeira de mostrar que raios de luz podem ser mágicos e quantas formas impossíveis tornam-se quase palpáveis, se não fosse a distância das nuvens, é claro. Elas chegam em desenhos, não sei ainda se eu com minha imaginação fértil crio cada elemento ou simplesmente o puro dom da natureza, do branco mais radiante ao cinza escuro, eles passam espremidos e é como se fugissem do algodão denso.


Umas luzes ainda tímidas brotavam do céu, naqueles dias em que a vida era simplesmente explorar alguns metros quadrados de quintal e imaginar o que faria depois. Tomei um banho rápido, joguei a mochila preta nas costas e fui para o centro da cidade.

A diversidade incrível de pessoas e objetos cruzava meu caminho. Era o mundo jogado pelas calçadas; filosofias, idéias simples, desejos com chamas apagadas, uma pobreza que dividia espaço com a riqueza. Bem, leitor, era isso que eu enxergava no centrão velho, em cada rosto pobre uma história, em cada rosto rico, uma sacanagem com o próximo, bem próximo dele. (Tudo bem, leitor, não é em cada, e sim em alguns rostos ricos).


Entrei numa loja de discos velhos na rua Augusta e mergulhei no túnel em direção ao passado que ficou bem distante de mim.
As músicas antigas faziam fundo musical, as pessoas que entravam na loja também pareciam diferentes. Sentia que todos que ali entravam buscavam algo perdido, ou que ainda nem encontraram. As capas de discos traziam lembranças para o louco Cassiano. Lembrei da única foto que meu pai deixou, de cabelo black power, uma calça cor-de-rosa boca de sino, (nossa quem usaria isso hoje?), camisa de lapela grande na cor salmão e bordada, um sapato preto de plataforma, olhos verdes arregalados, um sorriso espalhafatoso, acredito que ele sentia-se o próprio John Travolta nos embalos de sábado à noite! Essa foto ele deu de presente para minha mãe, provavelmente quando eram namorados. Bateu-me uma saudade estranha que não é costumeira, aliás, geralmente esqueço que tenho pai. As fotos dos artistas da época...

Meu pai tinha cara de artista, às vezes me pergunto se foi dele que puxei essa veia poética, pois da mãe sei que não é. Ela é muito seca, dura na queda, acho que a vida a deixou muito amarga e triste. Talvez o pai fosse metido a poeta, talvez escrevesse poesias, e dedicava letras de músicas para ela, e trazia todo o romantismo que uma moça na idade dela desejaria na vida. Não sei, ela nunca me contou sua história, não sei nada de seu passado, mas a verdade é que ela não suporta me ver escrevendo!

Os artistas eram mais alegres em suas apresentações, e parecia que suas inspirações eram mais criativas, um tanto que chorões, pois você, leitor, há de convir comigo que dor de cotovelo era o ponto forte de todos os compositores; amores, dissabores, tem sempre aquele que perdeu a namorada, que foi chifrado pelo melhor amigo, que tem um amor proibido. Ô raça pra ter desgraça amorosa! Ultimamente a desgraça tem outras raízes!

Saí da loja ainda meio que nas nuvens, vi o anúncio de uma peça musical no teatro do Sesi (ahaha, gratuita, amigos) e não hesitei em entrar. O teatro é algo que também me seduz, a forma como o ser humano serve de matéria-prima para o trabalho dos atores, um mundo de fantasia, verdades e mentiras, onde somos capazes de rir dos próprios problemas e nem mesmo nos dar conta que somos os protagonistas da tragédia encenada. Eu assisto aos espetáculos e tento entender onde posso mudar ou qual porta posso abrir em minha vida. Reclamo, como todos, do quanto é difícil, mas o importante é que minha cabeça muda e minha mente parece evoluir. Depois, fui a um lugar que você, leitor, não vai acreditar, é quase impossível de me imaginar lá, aliás, nem eu acredito que consegui entrar depois de tanto tempo, um imã me puxou, vai amigo, primeira tentativa... Nãooo, outra... Também não! Palhaçada, hein! E põe palhaçada nessa história, já deu pra sacar? Ainda não? Tá bom, não é tão fácil assim! O Circo! Puxa vida, eu fui!

Primeira atração: o mágico, a mentira, a ilusão, a magia. O engraçado do mágico é que você sempre espera que ele o surpreenda, que invente um truque novo, algo que você nunca viu em nenhum outro lugar, é uma vontade superior a você mesmo, mas...! Não dá outra, ele repete os truques.

O mundo é um circo, e para começar monta-se a tenda. Quem? Não darei respostas mastigadas, vamos lá, caro leitor, raciocinemos juntos (ou ao menos tentemos). O mágico, bem, acredito que é o presidente. Cada país monta sua pequena lona com seu ilusionista, é meio engraçado, mas cada gesto do mágico lembra o presidente, simplificando, todos políticos, tirou o coelho da cartola, essa é a mais velha, o que te lembra isso?

Vai pensando, talvez eu dê minha opinião depois. Enganar a platéia parece tão fácil nos primeiros momentos, concorda, querido Oz? A cada truque novo, um sorriso espantoso, a platéia enjoa, mas não desiste de descobrir os métodos ou de ver o próximo número.

Senhoras e senhores, o poderoso leão será domado pelo valente Pedro, o domador das feras, o que te lembra essa cena? Pobre domador! Pobre é do leão; coitado, oprimido, já derrotado por estar ali, faz pose de valente mesmo depois de ter sido capturado, urrando para que todos sintam medo, mesmo que depois volte para a jaula e chore por ter perdido sua história e sua família selvagem!

Somos de fato o público, uma platéia que ri da desgraça alheia, que não faz nada para mudar o quadro vivenciado e, pior, ainda aplaude as atrações!
A equilibrista está no papel de uma mãe de família, que precisa passar num fio de pouca espessura para dificultar e glorificar sua cena. Uma mãe economizando um mês inteiro para que seu salário mixo dê para pagar o aluguel, as contas, água, luz, gás, pôr comida para a família, verba para o material escolar dos moleques e tudo mais que aparece no percurso para assim vencer a corda bamba, mês após mês.

OH! Lá vêm os palhaços, fazendo piada, palhaçadas, brincadeiras para a platéia sorrir. Nós também somos os palhaços da história no grande circo da vida, rimos de nossas desgraças e fazemos os outros rirem de nossos dramas pessoais e comuns, a plebe!

Estamos sempre ali na arena, sem fugir da regra (deixando claro, meu caríssimo leitor, que há o provérbio “para toda regra existe sua exceção”).


Os palhaços são significativos, se escondem através de maquiagem e roupas coloridas. Certa vez, ouvi a história de um palhaço muito famoso nos circos que montavam arena na região. Era o palhaço mais engraçado de todos e também o mais infeliz, incapaz até de sorrir quando tirava a roupa de show; ele sofria calado, o desespero tomava conta de seu inconsciente, mas ele não deixava que seu corpo se abatesse, mesmo que sua mente passasse as noites em claro, impossibilitando o desejado descanso que todo mortal merece. Ele fazia com que seus delírios virassem poesias dramáticas que mais tarde foram descobertas e tornadas públicas junto com a história do palhaço Cascateiro, isso, é claro, após sua morte por excesso de calmantes!!! Desde então, sempre vejo uma lágrima nos olhos de cada palhaço que cruza meu caminho.

Olhar profundamente tentando enxergar a alma dos circenses parece uma experiência totalmente inusitada e construtiva, vendo como tudo em nossa vida está representado em diversas coisas ao nosso redor. Essa ida ao circo me fez ver e entender muitas coisas. Agora, quando você, leitor, for ao circo novamente, tente ter uma nova visão.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Imagens de uma triste lembrança

O enterro

Todos os amigos, conhecidos e curiosos seguiram em cortejo, a última despedida de nosso amigo. As minas com flores nas mãos, os amigos tentaram evitar as lágrimas, mas a revolta estava nos olhos de cada presente, um ódio que tinha em sua raiz o desejo de descontar na mesma moeda a grande perda.

O caixão desceu, as flores o cobriram, a terra foi jogada aos poucos, a cruz colocada, o cemitério era o tal São Luiz, conhecido por todos em todas as periferias do lado sul, quantos mortos, tantos inocentes, culpados, indigentes, São Luiz periférico, fim de todos!

A noite é uma visão horripilante no tal lugar, as pessoas são enterradas o tempo todo, já vi defunto de olho arregalado no caixão, defunto suando, mas o terrível para mim é o tal algodão no nariz, já tive uma porção de pesadelos com tudo isso. O paredão de ossos com todas aquelas fotos de crianças, jovens, adultos e velhos de todas as épocas registrados em três por quatro, o formato da maioria, uma imagem de morte e de pesadelo!


O tempo passa, a solidão da alma queima meu corpo, ainda não acredito em tudo o que aconteceu, parece impossível, aquele tal destino que parece rir de nossa cara, brincando com nossos sonhos que não acontecem e ainda colocando buracos no caminho.

Será que destino existe mesmo? Será que ele é tão cruel como parece? Prefiro não crer nisso. Certas coisas são impossíveis de apagar, e lamentar não adianta, martirizar-se, não há por quê! O melhor é virar mais essa página vermelha de minha vida e seguir em frente meu caminho. Contar a todos o que aconteceu, para que pessoas importantes, além de não serem esquecidas também sejam lembradas, como orvalhos que fizeram a diferença para alguém e serviram como exemplos de tristes histórias.

Sei que ainda encontrarei muita coisa ruim em meu caminho e, pior, ainda terei que enfrentar tudo de frente! Que os céus me ajudem!

domingo, 9 de novembro de 2008

Descobrindo as lágrimas

O valor da amizade:

As crianças cresceram, viraram jovens com destinos complicados e diferentes. Jogávamos bola na rua, já decidindo a turma, montavam o time dos sem-camisa e dos com-camisa. Como era fácil se divertir, um dia era sempre melhor que o anterior.
Quando a chuva caía, era festa prometida, correr com os amigos pulando poça d’água, tocando campainha das casas da rua de cima. Era emocionante soltar aquele grito com toda a força que se tinha nos pulmões, beber as gotas que caíam do céu, fazer de conta que éramos os donos da rua. O Lê era o meu melhor amigo, sempre estávamos juntos, mas ele não podia ouvir um trovão, o medo se expressava no olhar. Mesmo assim ele engolia calado, todo aquele medo era por causa do Biel, irmão dele, morreu com um raio. Caía uma tempestade, ele correu muito, mas não conseguiu chegar em casa, resolveu parar debaixo de uma árvore para se esconder, esse foi seu erro, foi uma morte feia, e traumatizou o Lê.

Depois da chuva íamos para o clubinho, foi o Gil quem construiu, era de madeira, e ficava no campinho. Contávamos estórias de terror, piada, e uma pá de mentira, o Gil era o campeão, ele fingia que era verdade, e a gente fingia que acreditava, tínhamos entre nove e dez anos, bem espertos, alguns já com a malícia de quem estava perto da adolescência, outros só mentirosos, com tanta fantasia que mal cabia na cabeça. O mais inocente era o Lê, acreditava em tudo, não falava palavrão, nem para ofender a mãe dos outros na hora das brigas, quando a gente mais usava os piores. Ele tinha medo de apanhar em casa, tinha pesadelo com o irmão e acreditava em Papai Noel, mas nunca ganhou nenhum presente, a não ser daqueles palhaços que se fantasiavam na escola, e muito mal por sinal, davam carrinho de plástico, que cortávamos com faca para abrir as portas, e ele dizia:

- São os ajudantes do Papai Noel, ele é muito ocupado.

Foi a época mais divertida da minha vida, deixou boas lembranças, bolinha de gude, taco (hoje sei que é uma espécie de beisebol brasileiro, com quatro pessoas), esconde-esconde, queimada, futebol de botão(tinha até campeonato com os manos das outras ruas, com direito a torcida das irmãs), carrinho de rolimã, mamãe da rua, duro ou mole, rouba bandeira, alerta e tantas outras brincadeiras, até fazenda de vaquinha feita de chuchu e batatinha a gente tinha. Mas com a idade, o mundo dos homens foi chegando, de repente uma dessas crianças poderia ser o nóia da avenida.

Viramos homens, e o Lê não é mais o menino com medo de raios e trovões, aliás, tem medo de pouca coisa, graças ao padrasto, descobriu que Papai Noel não existe. Não tem medo de encarar as pessoas, seja quem for ela. Esse é um erro mortal no mundinho.

Era sexta-feira, ele encostou-se ao muro da escola, quando viu o namorado da ex-namorada do outro lado da rua, e não deixou de encarar o mano, que veio tirar satisfação na mesma hora.
- Tá me encarando por quê? Ta me achando com cara de veado ou desistiu da vida?
- Sai fora, cara, não estou te encarando!

O Lê se sentiu humilhado, o mano tirou e zoou ele no meio da galera.
Depois da tiração, o mano falou que o assunto deveria ser esquecido, mas Lê estava muito puto e disse:
- Isso não vai ficar assim, Fido, qualquer hora a gente se tromba, e resolve essa parada!

Eles ficaram com o assunto guardado, pois mano inteligente não esquece treta perigosa, tenta logo resolver de uma forma ou de outra.
Malditas palavras foram as do Lê. Duas semanas depois, sentou-se na escada da banca de jornal do PC no ponto final e começou a escrever, foram poucas palavras, talvez uma letra de rap, um poema, ou só um desejo. A Nay passou e ele disse:

- Morena, você não anda, desfila.

Ela abriu um sorriso e entrou na escola, ele colocou a caneta na mão esquerda e parou para pensar. Fido chegou, deu poucas palavras e cinco tiros. Meu mano Lê morreu de olhos abertos e a caneta na mão, dois tiros foi no rosto. Nay ouviu os tiros e veio correndo, lá estava o nosso amigo caído, perto da banca de jornal, morto, cheio de sangue!

O maldito Fido fugiu na garupa de uma moto, e nunca mais apareceu no bairro.

Era fim de tarde quando eu chegava do trampo, duas viaturas me pararam, pediram os documentos e comentaram do assassinato de um jovem. Perguntaram-me se eu não havia visto nada de suspeito, fiquei curioso, afinal quem teria sido a última vítima do momento, com certeza deve, ninguém morre por acaso.

Que pensamentos os meus! Às vezes esqueço como é o mundo em que vivo, a maioria tem esse como o primeiro pensamento quando ouve de alguma morte na periferia. Mal sabia eu que ali a poucos metros estava meu amigo Lê.

Ainda na descida para chegar no local do assassinato avistei Nay, que veio desesperada ao meu encontro. Meu coração disparou, pensei logo nos irmãos. Minhas pernas paralisaram, e como pressentimento, lembrei do Lê. Nay chorava desesperada, e puxava minha mão. Eu não queria segui-la, mas quando dei por mim, já estava frente a frente com meu mano desfigurado pelas balas, e a caneta na mão. Ajoelhei-me próximo ao corpo e fiquei estático, o sangue empoçado me parecia impossível ser dele. Lembrei de quando éramos crianças e os olhos dele se enchiam de lágrimas quando ouvia um trovão, ele lembrava do irmão e dizia sobre o medo da morte.

- Eu só não quero sentir dor nesse dia.
Era o que ele dizia já choroso. Puxa vida, o Lê ta morto. Meu peito tava doendo como nunca, eu queria chorar, mas só conseguia espremer a solidão que sentia por dentro. Esse foi o dia em que descobri o valor de uma amizade. Ver um mano estirado com os olhos abertos era muito duro de aceitar. Será que ele sentiu a dor de que tanto tinha medo?

Quero fugir daqui, entrar num túnel sem fim, viajar numa galáxia bem distante, esquecer de tudo o que está acontecendo, só não quero presenciar mais nada, só não quero ficar aqui!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008


Pura moral

Quando se vê um moleque na rua, com gingado de boy metido a malandro, 10 anos de engano, atravessa-se a rua para não bater de frente com o perigo. O pivete senta-se no banco da praça, estamos no grande centro da cidade. Ajeita seu cigarro na mão direita, encarando um a um que passa na avenida; desconfiado como um gato, coça a cabeça e faz planos.

- Olha o marginal. Diz uma velha ao passar.
- Oh, juventude brasileira, deve estar preparando um assalto, responde a outra.

São moralistas, sem visão do mundo em que vivem. Mundos interiores tão desconhecidos, e proibidos ao grande público, que enxerga somente o exterior de outro alguém. O medo, o desespero, as vontades, acabou-se a esperança, não existem sonhos, futuro é privilégio de poucos, e já sabem disso. O presente é arriscado e mentiroso, cobiçado, a falta de oportunidades sempre abre caminhos, conseqüentemente a morte sempre bate às portas. Indomáveis são eles, que não crêem nas possibilidades. Há garotos irresponsáveis, revoltados e discriminados pela ignorância, a revolta vem do que aprenderam, conheceram sem opção, palavras que doíam ao serem ouvidas, e tudo que foram obrigados a conviver. Claro que ainda não é motivo para se perderem nas drogas, o problema é não entender que a fórmula mágica foi inventada para os fracos, sem estrutura, que deixaram de sonhar, abandonaram os amigos, desiludidos, perdidos na floresta urbana; cobiçados pelas feras humanas que querem sugar até o último centavo. Jovens disputados pelo pecado terrestre.
- Pô, mano me descreveu todo...

Mas não devia se entregar, porque nunca morrerás sozinho, vai acabar levando um inocente, e sendo condenado eternamente. Toda essa droga de vida deve servir de exemplo quando venceres. Coragem para não se perder no caminho, irmão!

Calma novamente, leitor, não fiques chateado, sei que seu ouvido não é penico, que besteira, você não está ouvindo, está lendo, mas tudo o que se lê ressoa pelos ouvidos, martela em sua mente, entrando na alma com uma intensidade sobrenatural. Exato, leitor, estas são palavras de quem lê muito e, de tanto ler, acho que ficou um tanto louco.

E esse monte de frases faz parte dos meus pensamentos loucos, saíram lá do fundão, como tudo que já escrevi, são as minhas impressões do mundo. Pronto. Falei!!

O rapper Criolo Doido disse uma coisa maneira: “ As pessoas não são más, só estão perdidas”. E isso se prova todos os dias em alguns becos, mas infelizmente isso não é uma regra geral, as pessoas más e as pessoas perdidas se confundem no meio da multidão que nos rodeia.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Mais um anjo que vem à Terra

O bairro acordou com uma notícia bombástica e as fofoqueiras de plantão já sabiam de tudo e encarregaram-se de assoprar ao vento.
- A santinha está grávida! Será que os pais não viram a que ponto chegaria aquele namorico de pivetes? Mais uma mãe solteira, com certeza! Porque o Marquinho é muito irresponsável, eu não deixaria minha filha namorar um tipo desses, agora vai ficar aí, como uma qualquer. Vejam só a que ponto chegamos, onde está o respeito, a moral, os bons costumes?- Essa não arranja nunca mais um marido decente.
Isso mesmo, leitor, a Luíza estava grávida. O desespero tomou conta da menina que se tornou mulher e agora seria mãe, e como todos já esperavam, o Marcos tomou chá de sumiço, e seu Paulo queria enterrá-lo vivo. Onde já se viu fazer tal coisa com sua filha única de apenas 15 aninhos. A filha ia ter um filho. A mãe caiu para trás, teve que tomar calmante após a notícia, o maravilhoso genro que prometia casamento, saiu de mansinho sem ressentimento.
O caldeirão ainda ferveria muito, a mina pobre, sem muitas condições, conto de fadas, príncipe encantado, parecia uma linda estória de amor, até o anjo mostrar as asas. Espere os próximos capítulos dessa história.

domingo, 10 de agosto de 2008

Chapa Quente




As correrias de Carlitos

As experiências são adquiridas pelas necessidades que surgem em nosso caminho, algumas são boas, outras não, mas todas nos ensinam algo muito importante.

Pensando na necessidade de ter um bom advogado para não ficar muito tempo engaiolado, os manos já começaram a investir no futuro deles próprios. Bolaram a estratégia de ter alguém que conhece a história dos guetos e realmente pensa na libertação de um mano, mesmo sabendo da culpa de cada um. Para isso estão tentando cursar a faculdade de Direito, conhecer melhor as leis que existem, para tirar proveito no momento de apuro ou até mesmo patrocinando o curso de Direito para os moleques que queiram enfrentar os cinco anos de estudos complicados e depois não vão deixá-los na mão.

Numa de suas encrencas, o Carlitos sentiu na própria pele a experiência de ser engaiolado e sofrer nas mãos dos policiais, e isso ele vai carregar para o resto de sua vida também, afinal, depois das aventuras no crime veio o primeiro castigo da lei dos homens.

Tudo começou com o plano de assaltar um supermercado do lado sul, dentro do próprio Capão Redondo. Ele e dois manos chegados deveriam render o gerente, levar a grana e pronto, partir pra comemoração. Mas algo deu errado e a polícia apareceu. Não se soube se denúncia ou azar mesmo, mas no corre-corre entre todos que por ali passavam ainda houve a troca de tiros, os PMs atiraram sem dó, para matar mesmo, mas eles já não estavam dentro do supermercado, e os outros dois conseguiram fugir, enquanto Carlitos foi atingido na perna e no abdômen, e o saco de dinheiro encontrado ao lado dele...

Contudo, o cara foi levado para o Hospital Campo Limpo como suspeito, afinal a arma não estava na mão dele (claro que a polícia sabia que de suspeito ele só tinha o nome naquele momento).

Carlitos ficou muito mal, baleado sem muita assistência no açougue que era aquele hospital, esperava o tempo inteiro a ajuda dos manos, que com certeza já pensavam em uma forma para fazer o resgate do companheiro. Os planos corriam muito rápidos e parecia que tudo ia sair como desejado, mas algo deu errado, e os gambés ficaram sabendo. Provavelmente tiveram algum cagüete. Apareceram de repente no quarto e só disseram as poucas palavras...

- Pensou que ia se sair bem, malandro? Querendo dá uma de loki, né? Tá enganado, não vamos dar tempo pra seus amigos te tirarem daqui!

A decepção foi clara, agora ele estaria realmente numa pior, foi levado direto para o distrito.
Carlitos teve sorte na cadeia, na cela em que foi jogado cruzou com alguns caras que já o conheciam do bairro e o admiravam, e foram esses companheiros de cela que o ajudaram na recuperação com remédios, curando as feridas e arrumando os curativos. Ficou debilitado por conta das feridas de bala, e por isso não foi jogado no chão frio como os que acabam de chegar, ficou na rede e também ganhou o respeito de alguns que ali estavam.

O tempo passou. Foram dez meses entre audiências para obter a absolvição, e nesse período cruzou com um mano do Jardim Macedônia, isso na época em que os bairros ainda se estranhavam, e o cara começou a falar mal do Rosa para os companheiros de cela, sem se dar conta de quem poderia estar ali (mais um exemplo de como os peixes morrem pela boca).

Carlitos não podia dar uma de bobo mostrando fragilidade para o inimigo, ele era o representante da turma do Rosa e os outros sabiam disso, então, deu um pulo da rede, e encarou o maluco de frente, precisava impor respeito e mostrar para os outros que era um criminoso de verdade e não um pilantra qualquer que comete delitos com a comunidade. Trocou idéia com o cara e resolveram ficar na paz sem difamar um ao outro. Depois desse acontecimento precisava se preparar para o pior, a morte é traiçoeira, e para isso fez sua faca com pedaços de ferro encontrados na cela, para garantir a proteção pessoal. Se o maluco vacilasse, ele ia subir sem perdão!
Nessa vida de crime era preciso muita humildade para sobreviver, o mano tinha que ser homem de verdade, procurar correr sempre pelo certo e seguir a cartilha do crime organizado sem sacanagem. Procuravam seguir uma ideologia de criminoso, e não pilantra, como ele falava.
O dinheiro ainda compra as pessoas, e essa foi a sorte de Carlitos para garantir sua liberdade. Uma parte da grana molhou a mão dos policiais para que não o denunciassem com o flagrante no crime, e outra parte molhou a mão do gerente do supermercado, afinal, ele era somente um funcionário e não quis arriscar sua vida com mixaria. No dia do julgamento o Carlitos foi absolvido e ainda ficou tido como um inocente, condenado a dez meses por um crime que não cometeu e perecido por meses baleado no tiroteio por engano. Como são as coisas, meu mano estava de novo nas ruas e com seu sorriso largo estampado no rosto, pra comemorar convidou os Cavaleiros pra tomar uma breja, e foi lá que contou esse episódio.
Mas o assunto ocorrido na cela correu com o vento, e os pilantras levaram o nome de Carlitos para a boca dos manos do Macedônia, e não foi com coisas a seu favor (a história foi contada diferente, para apimentar o acontecido). São em brincadeiras assim que muitos manos morrem de bobeira nas esquinas do destino. Após saber do risco de vida, e que não poderia mais andar de bobeira pelo bairro, porque a qualquer hora podia ser pego com uma bala na cabeça, ele tratou logo de resolver a treta, era melhor ir até os caras na humildade e tentar explicar a situação.
- O esquema era falar de cara, fazendo tudo certo, tava mil graus e se ele vacilasse podia subir na hora. Desci pro Macedônia e chamei os manos pra conversa, enquanto um ficava na isqueragem, atiçando com mentiras para os caras me apagarem logo, um outro mano pediu calma.

Os caras ficaram surpreendidos com as palavras dele. Tocaram na mão e disseram que só pelo papel de homem ele merecia ficar vivo, que ninguém ia mexer com ele e teria a garantia dos grandes do Macedônia, podia seguir tranqüilo (tá certo que ninguém fica tranqüilo numa situação dessa, mas ao menos tinha tirado um peso da cabeça).
Mais uma vez livrou-se de uma treta feia que podia levá-lo à morte, e como ele disse, estava pronto para outra.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Os feras na Perna de Pau


Bateu um vento forte

Quem dera poder voltar aos velhos tempos onde ser criança não era um tormento.

Poder brincar pelas ruas sem medo de ser atingido por uma bala perdida, encontrar um bandido, que possa torná-lo um futuro perigo.

É duro ter que acreditar que seus amigos de infância acabaram nas quebradas da vida, morrem pelos cantos, pelos encantos e desenganos. A molecada dando depoimento das tragédias e acontecimentos, olhos arregalados, morte por um fio, uma briga, uma dívida, mais um corpo estendido, foi mais rápido do que vimos.
Uma ventania levou os bons tempos, onde assistir ao Sítio do Pica-Pau Amarelo era o melhor momento. Ver os heróis japoneses como Jaspion, meu sonho era ser um desses; todos eram amigos, não víamos o perigo.

“Era bent-alta, rouba bandeira, pula pique esconde, tudo que é bom é brincadeira, vida de moleque é vida boa, vida de menino maluquinho!”

Muitos daqueles rostos inocentes acabaram sem dentes, tiro no corpo, choro em coro, dá desgosto pela vida e clemência pela fuga. O Notícias Populares faz conhecido nosso bairro, notícia ruim impressa, foto publicada ao lado, eis o artista do bairro, Jardim das Rosas fica famoso.

A violência aumentando, e um pequeno rato num labirinto cheio de inimigos, é assim que nos sentimos! As crianças que estão nascendo já não viverão em bons tempos. A era da magia, da fantasia e alegria abrem caminho para a tecnologia; brinquedos eletrônicos, tiros em família, novo mundo da hipocrisia.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Visão do paraíso




A realidade impede o desenvolvimento de muitos jovens na periferia, desacreditados na igualdade social. Eu sei o quanto é difícil entender o que se passa na cabeça dos jovens da favela, eu sei o quanto é difícil entender o que se passa na minha cabeça!





A dona do meu lar vê os acontecimentos ao nosso redor de olhos atentos: a molecada se envolvendo no tráfico, os pivetes ainda tão novos já usando drogas, os ladrõezinhos sendo assassinados. Ela morre de medo que um de seus “filhinhos” se envolva com o mundinho podre, e nos sufoca de tal forma que dá vontade de jogar tudo pro alto e mandar a velha para o espaço. Só proibições não fazem a diferença em nosso pensamento, o mundo parece mais simples do que realmente é; e é mais perigoso do que realmente parece .
Não sei se o fato de eu ser o mais velho e ter que dar o exemplo faz com que ela passe dos limites, exigindo muitas vezes mais do que posso lhe dar; não consigo obedecer minha mãe em tudo, afinal, moramos na periferia e não podemos nos excluir da galera. Ela bota defeito em todos os meus amigos, acha que ninguém está a salvo, que são todos malandros, ladrões, traficantes, ou usam alguma droga. Acredita fielmente em influências, não permite que ninguém venha visitar o barraco. Se aparecer alguém, ela esculacha sem dó e às vezes expulsa na cara dura, chama atenção de todo mundo e me mata com essas atitudes. Os manos não perdoam também, metem o pau nela, a chamam de louca e esclerosada, dizem pelos cantos que ninguém pode chegar perto da dona Jacinta, o bicho pega porque a onça se irrita. Se no portão aparece um mano com problemas querendo desabafar, e ela não conhece, Jacinta não pensa duas vezes e bota o moleque para correr. O mais engraçado é que se acha muito carola, reza o dia e a noite, chega cansada do trabalho, mas não deixa de ir ouvir o sermão, mesmo que seja somente pelo rádio, pega sempre um exemplo da rua e mostra pra gente, mas no fundo não aprende merda nenhuma, não consegue sequer compreender as pessoas, não acredita nas palavras.

Não sou um sofredor
Do asfalto um sonhador
Das letras faço a alma
Da morte única calma.
Espero dos montes uma certeza
Certeza impossível que não me vejas
Passas distante
Queime o bastante
Alastra-se como a guerra
Enfraquece sobra miséria.
Não sou um sofredor
Do asfalto um sonhador
Nasce poesia
Verdades e mentiras
Não fale da vida sórdida
Faltam ouvintes
Sobra discórdia
O soldado verde quer dar um tiro
Só resta rezar senhor mendigo
Playboy não dá alívio
Vira e mexe um novo crime
Papai rico livra e não reprime.
Cala a boca marginal
Não tem direito e nem moral
Periferia é esgoto
Acumula morte e desgosto.
Mães aflitas
Filhas distintas
Pai desempregado
Filho bastardo
Vizinho ladrão
Corre, lá vem camburão.
Febem é escola
Prisão, punição
Faculdade do cão
Vejam a bagunça
Reparem na podridão
Mas não esqueça que na favela
Existe gente honesta
Periferia não é mordomia
É escola de vida

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Como os nossos pais

Às vezes, quem mora na periferia não acredita que realmente exista um mundo diferente fora dela, só em novela mesmo. As coisas são pintadas da forma mais obscura. Acho que é isso que dificulta a subida nos degraus; os degraus para o sucesso, para uma vida melhor. Os autores dessas pinturas são aqueles em que acreditamos quando ainda somos o fio da esperança.
Às vezes eu paro, sento num degrau, fico a olhar para os lados, para o céu, e vejo a noite sem estrelas pelo ar poluído. Reflito, penso na vida miserável que somos obrigados a aceitar. Dá uma vontade de chorar, mas não é fraqueza, é ódio mesmo, tanta gente com muito, e outros com nada, tanta falta de oportunidade. O que fazer para mudar?
Cada dia que passa um amigo cai, cheio de bala.
-É mais um fraco! Dizem as autoridades.
-Escolheu o caminho errado, Dizem os donos do poder.
Mas que caminho? Tem hora que o demo tampa nossos olhos e o conveniente é a única solução. Caminho curto e dolorido, mas quando os olhos estão livres de vendas não há mãos estendidas, há sim palavras bonitas, piedosas, mas que só castigam um cara sem sonho e sem direção.
Encontrar alguém que possa informar o caminho certo para o sucesso às vezes é difícil, pois todos têm sua resposta, que geralmente é furada. Mas depois que alguém encontra a certa, o duro é convencer os manos de que todos devem segui-lo. Ninguém confia em ninguém nessa terra de Deus, o pé atrás está presente até mesmo na conversa com o melhor amigo.
Aprendemos a conhecer o caminho com os nossos pais. Entre tantas palavras de ordem desses seres de mais sabedoria, as que batem mais forte são as que falam dos sonhos: que não devemos sonhar muito alto, porque quem sonha cai da cama. Quem sonha pode não acordar, porque o futuro chega rápido e temos é que tratar de seguir o mesmo caminho que eles, porque na pior das hipóteses, não passaremos fome. E aí, o tempo vai passando, e sem perceber, nos tornamos como os nossos pais. Assim como muitos ricos, seguimos os exemplos que estão próximos.
Sabe, leitor, há dias em que sinto um ódio sem dimensão desses adultos que se consideram os donos da razão, os mesmos adultos que infelizmente são as únicas peças de direção das crianças da periferia e fazem disso a perdição de muitas. Alguns adultos mostram a direção sem futuro promissor ou a direção ao abismo. Quando eu digo que daqui, não temos dimensão do mundo, digo também que não acreditamos nas coisas boas que mostram na tv, porque na prática, só enxergamos os bandidos, os traficantes, os pais bêbados, as mães cansadas de tanto trabalhar em casas de família ganhando tão pouco; enxergamos os políticos esquecendo as promessas de urbanização e melhorias na favela sempre que eleitos; a malandragem crescer dia após dia; os assaltantes se dando bem cada vez que estouram a boa, ou morrendo cada vez que os gambés estouram a boa.
A vida loca faz com que a maioria da população carente não se dê conta da geração que vai se estabelecendo seguindo seus exemplos. Os pais dizem apenas que devemos estudar para ter um futuro melhor, mas ao mesmo tempo não buscam o estudo, não buscam nenhuma forma de cultura ou sabedoria que possa levá-los a melhores condições de vida.
Muitas mães colocam as crianças para pedir dinheiro em farol de bairros ricos, às vezes descolam balas para os filhos venderem e até panos de prato que bordam. Com isso, essas crianças, se tornam adultas mais cedo, descobrindo a malandragem das ruas, o tamanho da desigualdade e, o pior de tudo, que estão excluídos das coisas boas que o dinheiro oferece. E são humilhadas, nas mesmas ruas que buscam o dinheiro para o feijão, fazendo nascer a revolta que constrói a violência urbana.
No Jardim das Rosas existe muita criança de 8, 9 e 10 anos que deseja para o futuro a sorte de virar criminoso e traficante, porque assim eles têm a certeza de que não passarão necessidades a vida toda (já calculando que a vida toda não é muito, mas vivendo daquele jeito nem precisa tanto tempo). Só com esses exemplos as crianças têm a comprovação de que as coisas mudam, e é por isso que algumas acabam seguindo esse caminho, sem acreditar em nada melhor.
Esse quadro é horrível, e sei mais do que ninguém o quanto dói ouvir sobre ele. Muitos que conseguem sobressair-se dão o fora e nunca mais aparecem na favela, e nem servem como exemplo, pois aquilo que não se vê, não se pode provar. E então sobram os outros exemplos.
Eu acredito que tudo poderia ser diferente se mais pessoas tivessem a consciência que poucos possuem, de mostrar que há caminhos para o sucesso, e também ajudar nos primeiros passos, pois todos precisam de um guia, para acreditar no caminho da luz.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A festa




Dominado pela droga - Parte 2 - O aniversário

Quinze de novembro
Ele entrou,
Pediu um guaraná,
Talvez fosse o último,
Não podia imaginar.
Chegou de mansinho,
Com cara de anjinho.
Subiu as escadas,
Estava assustado
Quando viu os caras
Quase pulou para trás!
Ainda pediu misericórdia
Mas era tarde.
Foi agarrado pela gola
Tirado da casa
Aos chutes ele desmaia
Tão novinho, coitado!
Não podiam imaginar
Algo de errado
Com certeza está no ar.
Morrer desse jeito
Isso não é normal.
As senhoras ao vê-lo
Só comentavam esses ensejos.
Foi levado para rua
Espancado, pisoteado
Oito tiros na cabeça
Estirado na sarjeta.
A multidão acumulando
Todo mundo só olhando e comentando.
A madrugada chegou
A chuva entornou.
Sua mãe sabe-se lá!
Talvez dormindo
Sonhando com anjinhos,
Sem saber onde anda seu querido filhinho.
A polícia chegou,
No camburão o jogou,
Foi pro I-M-L
Esperar o reconhecimento,
Que a família procure
O menino que não voltou para casa.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Perdido na noite


Noite fria do Jardim das Rosas


Perdido na noite

Ouvi palmas que expressavam aflição gritou “Cassiano!” Somente uma vez. Nay nem saiu do lugar, disse para eu atender antes que a mãe ouvisse. Uma voz já grossa, apesar da pouca idade, voz marcante que se anuncia de longe.
Você já conheceu alguém com uma voz assim? Que te deixa refletindo sobre o que se passa para ela sair diferente das outras, meio angustiada, do tipo que ressoa no ouvido quando menos se espera. Era a marca registrada do Jobsom...
- Aí! Beleza, cara, tava só passando aqui e resolvi parar, só para dar um oi, eu juro cara...
- Calma, mas eu nem perguntei nada. Firmeza, mano! Há quanto tempo a gente não se tromba, que cara é essa? Tá passando mal? Aconteceu alguma coisa?

O Jobsom estudou comigo na sexta-série, eu passei e ele foi reprovado. A gente se dava bem pra caramba, ele era o artista da sala, seus desenhos eram expostos no mural do colégio, eram espetaculares, a perfeição inacreditável, o cara tinha uma imaginação, fazia caricatura de alguns professores, o retrato perfeito de outros, mas infelizmente era só em artes que ele se destacava. Odiava números, detestava ler e, mais ainda, receber ordens. Andávamos juntos, ele com sua arte, eu com minha poesia, meio que isolados dos outros, nossas idéias eram parecidas, ele mais rebelde do que eu, mas num misto de tudo, tínhamos um ideal de vida diferente da molecada da época, que já era avançada no que dizia respeito às coisas do mundo. Alguns já usavam maconha e se achavam o máximo, querendo tirar a gente, “os caretas”, soltavam a fumaça dos cigarros em nossa cara e pagavam de gatinho. Tinha mina que caía matando pelos caras de “atitude”, os “poderosos do colégio”, e a gente sempre chupando o dedo.

Numa sexta-feira Job chegou de cara fechada, não cumprimentou ninguém como era de seu costume e depois do intervalo ele não disse uma palavra. Resolvemos cabular, mas às vezes era difícil driblar a zeladora. Todos que queriam cabular se escondiam num quartinho de bagulhos ao lado do banheiro. Eles nem pensavam em procurar lá, pois tinha tantos empecilhos que não podia caber alguém, mas os cabuladores profissionais fizeram questão de deixar o local perfeito para as fugas e quase seguro. Quando os professores denunciam, a diretora sai à procura dos cabuladores e revira a escola toda deixando um clima de aventura no ar, aguçando a vontade dos alunos de cometer o pequeno delito mais vezes. Mas creio que não fizemos falta naquele dia, e ninguém saiu à caça. Job não queria chorar na sala, ele odiava chorar perante alguém, não queria responder perguntas nem dar satisfação, mas na minha frente ele chorou e não se preocupou em secar as lágrimas. Havia recebido uma carta:

“É com pesar que pego nesta caneta para dar a infeliz notícia, meu querido sobrinho, agora terás que enfrentar as durezas do mundo sem o apoio de seu pai...”.
As lágrimas desciam com mais rapidez nesse momento.
“Covardes assassinaram seu pai na noite de sábado num bar aqui perto, avise sua mãe e faça o possível para vir ao enterro e dar o último adeus. Não é com alegria que me despeço, agüenta as pontas aí, seja forte agora e até a hora do reencontro”.
Ao término da carta, ele tinha os olhos tão vermelhos que parecia ter fumado uma porção de baseados. O pai de Job já era separado da mãe havia dois anos e mandava uma carta de seis em seis meses. Estava morando no interior de São Paulo.

- Minha mãe quebrou quase tudo dentro de casa, e olha que nem tínhamos tanto, a estante ficou zerada, sabe, Cassiano, eu nem me ligava muito no velho, era sempre aquela distância de pai e filho que a gente já conhece, mas cara, eu nunca mais vou receber uma carta do velho, nem vou encontrá-lo, e o pior é saber que foi um vagabundo que o matou, por motivo que ninguém sabe ao certo, pô, cara, é de doer a alma, se eu tivesse uma arma agora e soubesse o filho-da-puta que fez isso, eu não seria dono do meu corpo, ia fazer miséria naquela cidade. E agora? Aonde a gente vai arrumar grana para as passagens? Minha mãe não tem poupança, nem guarda dinheiro assim, não vou poder nem dar o último adeus pro meu pai...

Ele desabafou e chorou como uma criança quando leva um tapa. Job tinha levado um tremendo tapa que ia deixar marcas profundas. Sua mãe nunca mais foi a mesma. Nunca foi de passar a mão na cabeça dos filhos, mas ficou ainda mais seca e fria por dentro, sua vida sofrida deixava marcas no rosto cheio de correias.

A sobrancelha grossa quase ligada uma na outra, o olhar expressivo, corpo meio franzino, só usa roupas largas que é para disfarçar a gordura, como diz ele. O boné que não sai da cabeça, encardido já está. Depois subimos para a sala de aula, ao entrar o olhar irônico de alguns garotos irritou-o, a professora de história deu de fazer leitura justo naquele dia, e foi pedir logo para o Jobsom. Num tom bem ignorante ele respondeu:
- Eu não vou ler porra nenhuma!
Logicamente que ela se irritou e retrucou:
- Quem é o garotinho sem educação para falar desse modo?
- O garotinho mal educado é o bastardo do Jobsom, fessora!

Quem disse isso foi o pagapau do Edson, um dos moleques que ele tinha a maior bronca na sala. Jobsom se enfureceu de tal forma que voou para cima do Edson na mesma hora, a professora desesperada chamou a diretora, enquanto isso na sala todos gritavam em coral:
PORRADA
Fiquei sem saber o que fazer, e ao tentar separar a briga acabei levando uma porrada, da qual só senti o tombo no chão. O resultado dessa briga foi à suspensão de duas semanas. “Só para esfriar as cabecinhas dos briguentos”, disse a diretora, dona Célia.

Ele repetiu aquele ano e foi aí que nos desencontramos. Não morar no mesmo bairro causa esses desencontros nas nossas vidas. E agora ele estava ali na minha frente, me pedindo ajuda.
Naquela noite Job estava muito deprimido, abatido, tinha brigado com a mãe, não queria voltar para a escola. Tava novamente com medo dos professores, da diretora e dos alunos, medo de machucar alguém, de falar ou fazer algo que não devia, aflito com olhos lacrimejantes e voz trêmula, não sabia onde pôr as mãos, um adolescente com problemas e pior, drogado. Ele disse não saber o que fazer estava cansado da vida e de tudo, e olha que ele só tinha dezessete anos. Não era a primeira vez que brigava na escola:
- Quero mudar de sala, de horário, de escola, sei lá! Não quero encarar novamente aquela diretora. Aí Cassiano, eu não quero chorar cara! Minha mãe falou que seu eu não voltar a estudar, também não precisava voltar para casa, já era hora de eu me comportar feito gente, falou uma pá para mim. Ela já tá enjoada de reclamar, mandar eu parar de sair com os mano lá da área. A velha já tá ficando louca, se lembra dela, né? Tá acabadona agora, só correia na cara, acho que ainda mato a coitada de desgosto, putz, cara! Acho que já estou é perdido mesmo, como ela não cansa de me repetir.

...

Ele esfregava as mãos, suava frio, não conseguia ficar parado...
- Você nem esperava que eu aparecesse por aqui, não é mesmo, quando você me imaginou falando tudo isso? Fala com a diretora para mim, me dá uma força aí, irmão!
- Como eu posso te ajudar, cara, eu não consegui sintonizar ainda qual é o seu drama!
- Hã? Já te enchi o bastante, né, irmão!
- Não, que é isso...
- Já é tarde mesmo, eu vou nessa...
- Mas cara como eu posso te ajudar, você nem explicou qual é o drama, o que tem a diretora nessa estória?
- Você ajudou muito, irmão, me ouviu como há muito tempo ninguém me ouve! A gente se encontra, se eu conseguir mudar, achar uma nova estrada, a gente se vê lá... Que é isso, cara, olho cheio d’água, tá parecendo minha mãe depois de horas de briga, tá ligado que eu não passo dos vinte, né, mas não liga não, todos morrem um dia.
- Pô, irmão, não antecipa sua morte, seja lá o que te aflige tanto.
- Falando difícil, meu irmão, tá aproveitando as aulas, hein...! Eu também já tô chorando, olha, somos dois idiotas mesmo, o tempo passa e não mudamos... Cara, eu tô frito!
- Deixa eu terminar, Job, seja lá o que te deixou nesse estado, cara, não deixa te destruir mais, pensa na sua velha, ela vai ficar sozinha..
- É tudo o que ela quer...
-Não, eu sei que não, nenhuma mãe quer isso, se levanta cara, aquela porra fez isso com você, não deixa ela te levar para uma cova.
- Valeu, irmão, você deu uma força, tchau! Vai dormir, sonha com os anjinhos!! Ahahaha...
E lá se foi o cara na noite de segunda-feira. Sem destino, seu boné encardido, suas roupas largas, sem rumo pela viela. Só queria desabafar, não era coincidência estar passando por ali, lembrou de nossa amizade, talvez a única que ele ainda tenha, afinal os amigos são as únicas coisas que realmente escolhemos, e alguns se tornam verdadeiros e até eternos.

sábado, 24 de maio de 2008

Igreja Nossa senhora de Fátima


Quando o céu vira inferno

Um cabrito aconteceu nessa semana, e me deixou puto. Ricardo é meu mano, e jamais quis ver o seu mal, mas o cara procura, vai gostar de confusão lá nos diabos. E quem sofre nessas horas só podia ser a mãe, que fica angustiada ao ver o filho nessas situações. É como o diz o ditado: parente é serpente, não se escolhe e morde a gente (na verdade eu juntei dois ditados que conheço).

Dona Fátima é a mãe de Ricardo, e vai a uma igreja evangélica sempre. Algumas pessoas mudam de religião para descobrir a sintonia perfeita com Deus entre a terra e o céu, outras, para ficar de bem consigo mesmas, algumas acham que é sinônimo de salvação. Muitas vezes mudar de religião é uma fuga para a falta de respostas, mas o importante é que o Deus é único, consagrado, e, quando se crê, ele é capaz de realizar verdadeiros milagres, e o importante de tudo é ser capaz de fazer com o próximo somente aquilo que quer que seja feito com você, e amar a Deus sobre todas as coisas. Fala aí, leitor, as aulas de religião fizeram efeito, mas não vale ficar só no papel, isso evita muita morte, valeu!

Muitos não acreditam no que jamais viram, não existem provas para o sobrenatural. Não freqüento missas, nunca rezei um terço, apesar dos muitos pedidos de minha mãe, mas acredito na força desse único Deus que me guia e protege. Rodrigo é um amigo que começou a freqüentar a igreja e se tornou fervoroso, assíduo nas leituras ele está aprofundando seus conhecimentos. Hoje, ele diz que o Espírito Santo dominou seu ser, e as palavras com que ele defende sua religião, suas verdades e seus mitos são impressionantes. Às vezes ele não entende alguns significados embutidos nas palavras e códigos da Bíblia, que assim como sonhos precisam de decifração. A falta de conhecimento faz as pessoas ignorantes, e acho que também é assim nas religiões, mas o Rodrigo tornou-se mais sábio por saber distinguir alguns enigmas da bíblia.


Não sei como nem por quê, mas Ricardo roubou uma Sete-Gala, poderosa moto objeto de desejo de muitos. Viram quando ele desceu para uma boca. Era o que eu temia, devia estar com uma grande dívida e só um grande roubo poderia resolver o problema. Meu mano estava ferrado, quem o salvaria agora? Respondido, leitor. Ninguém! Ele entrou e tinha que sair dessa, sozinho, para aprender com os erros o caminho certo, essa era a lei, sempre sozinho, cara, sem amigos para essa droga. Advogado, só o do diabo.


A mãe do Ricardo voltou à igreja de Nossa Senhora de Fátima, na qual ele foi batizado. A pobre subiu de joelhos as escadas com o véu na cabeça, rezava sem parar, e um mar de tristeza corria em sua face enrugada pelo sofrimento. Fátima não se consolava. Sem saber para onde correr, que religião seguir para seus medos encobrir e suas verdade destruir, ela rezou ao pé da santa, que a olhava com a ternura de uma mãe, os anjinhos do altar ao seu redor lhe secavam as lágrimas que não cessavam. A alta superstição, em relação a religiões, confundia sua crença e fazia dona Fátima explodir de dúvidas e remorso por acreditar ser a única culpada pela situação de seu filho. Ela ouvia os comentários na rua e também por onde passava, e isso a deixava deprimida.

Fátima teve a visão do diabo lhe batendo à porta, entrando sem ser convidado, deitando-se ao lado de seu filho querido. Seu desespero se tornou maior quando ouviu a voz maligna murmurando, com as mãos seguras em Ricardo, dizendo que agora ele seria seu filho também. Ouviu gritos e gritou junto, sentiu o calor do fogo que lhe rodeara e seu pequeno Ricardo ser dominado pelo Demo. Sentiu-se elevada e jogada num grande precipício, com espetos pontiagudos envenenados lhe corroendo o corpo e a alma. A face de seu filho Ricardo, numa grande ilusão, gargalhava para ela, e num grito de terror que dera fora acudida por padre Miguel, já desmaiada com um crucifixo nas mãos apertado junto ao coração.

Fátima sofreu parada cardíaca e foi levada às pressas para o hospital dos pobres, o assim chamado hospital Campo Limpo.

Onde se encontrava Ricardo? Só Deus sabia. Os vizinhos foram avisados, pois era muito querida, porém sem parentes conhecidos. Na favela éramos todos como uma grande família. Quando somos sozinhos e moramos num local onde ter conhecidos pode salvar sua vida ou simplesmente destruí-la, ficamos à deriva, com medo de tudo. É numa hora assim que aparece o verdadeiro amigo, e dona Jacinta ficou com Fátima ouvindo todas as suas lamentações, mas, como parentes traíras, também houve os que fugiram sabendo o quão santo era o filho da falecida. Eles tinham medo do que podia acontecer depois.

Fátima jamais viu nada que incriminasse Ricardo, mas seu dom de mãe já pressentia o caminho que seu filho escolhera. Em nome do grande amor que sentia, renunciava à própria vida.

É o mar que se torna presente
Formado pela dor
De um seio sem cor.
Coração latejante que não se agüenta em pranto,
Coração de mãe,
Que chora calada em busca de sua espada.
Maria e seu filho querido
Eternizado
Pela morte sofrida.
Lágrimas de mãe aflita,
Lágrimas de uma longa vida.
Não chora agora, minha mãe querida,
A criança cresceu,
Seu caminho escolheu,
Para o amanhã que Deus deu.
Desabrocha e floresce.
Minha mãe não mais padece.
És o sol da minha vida
Levanta e retoma a vida.

Não viveu. Fátima teve o óbito declarado às seis da tarde. Foi para um plano melhor, e se o céu existe talvez ela esteja a caminho. Em seu último dia de vida não teve seu apoio precioso, o filho que criou com tanto medo do mundo. Sofreu calada, pois seu sofrer maior já havia sido derramado por inteiro no chão da capela.
Se Ricardo tinha algo que o impedia de realizar seus planos, hoje ele perdeu, e tomará seu rumo sem medo do amanhã e sem ter que dar satisfação a qualquer pessoa. Sozinho, agora é ele o dono do mundo, e terá como proteção um prateado e suas palavras.

terça-feira, 20 de maio de 2008


Pai nosso


Aos meus dez anos, uma das minhas avós me ensinou a rezar. Pouco antes dela morrer, pediu que sempre que estivesse sozinho, triste, precisasse de alguma coisa, e principalmente quando algo fosse atendido, eu devia rezar e agradecer.
Daí para cá sempre rezo pelos manos, peço a Deus que cuide da favela, pois ninguém está livre da guerra, peço para não presenciar mais mortes, mas o Grande talvez não tenha tempo de me atender. Acredito que haja excesso do mesmo pedido, e Ele me escolha para ficar para depois. Como diria vovó, os mais necessitados primeiro.

Que meu pai lá do céu
Olhe pelo povo sofrido,
Cuide do réu
Realize o pedido,
Ouça os tiros,
Salve os perdidos.
Calçadas ensangüentadas
Vidas despedaçadas!
As mães desesperadas,
Moleque de olho arregalado,
Silêncio guardado,
Olha a bala perdida!
Uma cabeça abatida.
No silêncio se foi
O órfão de pai e mãe.
Mais comida para inseto
Mais trabalho para coveiro
Acontece no mundo inteiro.

É difícil ouvir um professor chato, decorar fórmulas malucas que nunca sabemos quando e como vamos usar. Fazer decoreba para a prova chega dói, aí, chega o ponto em que temos que apelar para os céus. Essa oração foi ensinada para quem já está fudido, porque nunca é tarde para tentar a última salvação:

Pai nosso dos estudantes
Mestre nosso que estais na sala
Não ficais zangado
Multiplicada seja a sua paciência
Venha a nós o vosso espírito
De estudante adormecido
Seja feita a vossa vontade
Tanto na classe quanto na nota
O dez nosso de cada dia
Nos dai hoje
Perdoai as nossas bagunças
Assim como nós perdoamos nossos professores
Nunca deixei-nos cair em segunda época
E livrai-nos da reprovação
Amém

Vale a pena rezar na hora do apuro, mas nunca esqueça a cola nossa de cada dia, o que também não garante, mas dá uma segurança. Dizem que quem cola não sai da escola, mas você já percebeu que depois de uma cola bem-feita a gente acaba decorando a matéria e nem precisa na hora da prova. Confessem, quem nunca colou nessa vida que atire a primeira pedra. Parece um imã que puxa, já cheguei a colar sem precisão, eu tive um professor chamado Moacir que sempre dizia ...

sexta-feira, 25 de abril de 2008

A loira do banheiro



A loira do banheiro foi fotografada!(A mina pálida ao fundo). As minas só descobriram isso depois de revelar a foto... E até hoje alguém lembra da história...

Loiras do banheiro e Boa-Noite Cinderela

Certa vez os manos se reuniram numa aula vaga. Ricardo era sempre o manda-chuva, dava as idéias, e os outros apoiavam e executavam. Ele é gente boa, diz que para o que precisar, com ele pode contar, se alguém provocar, ele pode mandar ou ele mesmo derrubar, seja sempre seu amigo e a proteção é garantida.
O mundo de Ricardo já não era o mesmo que o nosso. Suas companhias, seus trajetos e sua mente haviam mudado. Ele assustava com suas palavras, às vezes só para impor medo, não sabíamos do que era realmente capaz, e se tudo que dizia podia se tornar realidade. Já era um Cavaleiro extraviado.
O plano seria executado no dia da festa que as gatinhas tinham armado. Até o Benito resolveu entrar na dança, tirou seus grandes óculos fundo de garrafa, e se espantou com as palavras de Ricardo.
Senti-me estranho naquela noite, não queria seguir em frente com o plano. Não me enxergava fazendo tal coisa, se algo desse errado estaríamos todos ferrados, se alguém abrisse o bico, estaríamos todos expulsos do Tenente.
Ao olhar no espelho pela manhã:
- Cara, não seja covarde, talvez essa seja sua chance de ganhar mais respeito com os caras, mas cuidado, vê se não exagera.
Caro leitor, não sabes como é difícil entender a situação e enfrentar a realidade tomando a decisão certa. O que seria correto para mim naquele exato momento? Fugir e não participar daquela experiência? Sem saber o que iria acontecer, resolvi pagar para ver, e com os manos fazer a festa.
Ricardo havia dito que traria uma surpresa para o grupo, e trouxe, ele já havia descoberto a tal maconha, e achou uma grande novidade. O Zé Pedro trouxe uma bebida chamada Último dia.
A diretora estava caindo de sono em sua sala. Fabrício havia colocado sonífero no cafezinho dos professores, o famoso Boa-Noite Cinderela. Todos beberam, e depois de alguns minutos estavam, sem exceção, desmaiados. Ricardo os trancou na sala, e Rondisval se encarregou de tirar os fusíveis. De repente toda a escola estava num breu espantador, nenhum adulto à vista, era tudo o que um bando de adolescentes malucos precisava para ter uma noite muito louca.
Quem não gostou muito da história foi o Rob, que tinha verdadeiro horror da escuridão, mas o maior problema era o fato de ser na escola, afinal, quem nunca ouviu falar na história da loira do banheiro. Vai dizer que você não conhece, leitor, essa já é velha, mas ainda assustava. Espere um momento, vou relembrar um episódio que se passou no primário, quando ouvi pela primeira vez sobre a tal loira, que por sinal me fez ter muitos pesadelos, e até hoje me dá arrepio contar sobre ela.
Há três versões para o caso, mas o importante é que ela sempre aparecia do mesmo jeito: de branco, algodão no nariz, pálida, unhas vermelhas, algumas vezes chorando, outras com um sorriso sinistro. Podia ser uma loira velha, uma jovem e uma aluna de uns 15 anos. Segundo a história, a senhora foi buscar seu neto na porta do colégio, mas antes de chegar foi atropelada por um carro, e até hoje perambula pelas escolas à procura do menino, pois nunca conseguiu chegar. A jovem devia ser uma professora que foi estuprada dentro de um banheiro da escola quando ia se maquiar, pois era muito vaidosa, e em seguida foi assassinada. Sua alma ficou presa no banheiro. A última história é da aluna que era apaixonada por um professor, e um certo dia ele apareceu na escola com sua namorada. A garota ficou tão decepcionada que entrou dentro do banheiro, arrumou-se toda e colocou uma corda no pescoço se matando.
(...)

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Fundação Cafu




Cafu na Copa de 2004 (a do pentacampeonato), taça na mão e camisa com a frase:

100% jardim Irene


Campão do Jardim Irene

Cafu, do Jardim Irene ao Japão

Esse é um dos filhos dessa terra que foi longe e fez o mundo conhecer o Jardim Irene (bairro ao nosso lado) em uma copa do mundo, a mesma que nos rendeu o pentacampeonato mundial no Japão. O nome dele mesmo é Marcos Evangelista de Moraes, mais conhecido como o capitão Cafu, o comandante da seleção brasileira vencedora.

A sua infância e adolescência foram no Jardim Irene. Assim como todos aqui, o Cafu vivia jogando bola nos campinhos entre o Jardim das Rosas, Macedônia, Parque do Engenho e Irapiranga, e percorrendo os mesmos caminhos que hoje trilho, mas isso com a meta no futebol.

O cara foi tetracampeão mundial em 1994 e pentacampeão mundial em 2002, e num dos gols levantou a camisa canarinho mostrando na camiseta branca a frase “100% Jardim Irene”, depois disso todos queriam conhecer o que era o jardim Irene. Todos os programas de TV exploraram e de certo modo acabaram aumentando o ego de todos os moradores do jardim e das proximidades. Agora muitos, quando perguntados onde moram, respondem:

- Conhece o Jardim Irene do Cafu?! Então, é lá!

O projeto "Alimente um Sonho" rendeu a construção da "Fundação Cafu", no alto do Jardim Irene, que hoje oferece vários cursos gratuitos para a comunidade tentando realizar o sonho da transformação social de todos aqueles que conseguem vencer e sair do Jardim para um lugar melhor.

terça-feira, 15 de abril de 2008


Visão aérea do Bairro Jardim das Rosas
- Capão Redondo - Zona Sul - São Paulo - Brasil

Os Bambas


Os Bambas é o nome do grupo que formou a escola de samba do Jardim das Rosas. O presidente é o Roney.

Os Bambas foi fundado em 1979, no Jardim das Rosas, por um grupo de amigos na casa do seu Nenê, para a formação do time de futebol cujo nome era E.C. Os Bambas. Em 1984 foi nomeado o sr. Eduardo Grecco como presidente. Na época, fora oficializada a verba do Estado pelo governador Franco Montoro, o que garantiu a presença da turma nos desfiles oficiais do carnaval paulistano até os dias de hoje. E essa turma fez a nossa alegria por muitos anos seguidos com os desfiles nas ruas do bairro. Lembro-me bem quando saíam pela rua João da Cruz de Souza com os carros alegóricos jogando confete e serpentina. Eu não curtia os desfiles na tv, e nem me ligava no lance de carnaval, mas Os Bambas eram diferentes, estavam tão próximo da gente, que não dava para deixar de prestigiar a galera que se dedicou montando tudo aquilo. Depois a molecada do bairro se fantasiava e ficavam os dias de carnaval pulando na rua. Os meninos adoravam se vestir de mulher, pegando roupa da irmã, da mãe, colocando laranjas no peito e brinco nas orelhas. Os Cavaleiros do Apocalipse também curtiam muito esse lance. Eram carnavais inesquecíveis aqueles, cantando marchinhas de carnaval que os mais velhos ensinavam.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Julgamento escolar

Sabe mano, minha escola era um barato, o Tenente Ariston, grandes lembranças, lá eu conseguia viver aventuras chocantes, a galera quando se reunia dava trabalho para a direção, mas dizem que tudo isso fazia parte do crescimento, aprender com os erros e descobrir que as conseqüências podiam castigar feio. Sei que não éramos santos, mas estavam nos pintando como capetas. Tive minha ficha suja naquele ano, cabulei aulas, me envolvi em brigas alheias, realmente extrapolei e até assinei o livro negro.

A turma do colégio descobriu a poperô, dança lagartixa que mesclava todos os ritmos musicais bem rápido. A galera parecia lagartixa em areia quente por conta dos movimentos. Os manos com calças boca-de-pizza, baby look, gel no cabelo ou topete e as minas de cintura baixa, boca-de-pizza e miniblusa, arrasavam no salão, pois em grupo formavam um misto de black music com discoteca. As outras tribos os odiavam, pois eram metidos e se achavam os maiorais nos concursos de dança em danceterias como a Ghost, Reggae Night, New Peoples, Palácio etc... Exemplo disso é quando eram encontrados, sozinhos ou em pequenos grupos, por punks, clubbers e outros, e eram obrigados a correr quilômetros, ou se quisessem enfrentar, apanhavam ali mesmo, por não terem técnicas de briga de rua como as gangues que em vez de dança treinavam lutas.

Foi um ano de aventuras, catei muitas minas, me enjoei rápido delas, pareciam todas iguais, que não se importavam com nada, aproveitávamos somente o momento. Mas ficar com qualquer uma não era legal, quando o dia acabava, eu ficava pensando em tudo que havia feito, daí vinha o remorso: será que alguma mina se apaixonou?

Um fato daquele ano de 1997 ficou na memória de todos. A turma da 8ª série D ficou famosa no Tenente por ter reunido no mesmo ano os piores alunos (no quesito bagunça e desordem) daquela série, numa mesma sala. Esse título foi adquirido por estes alunos após uma carreira promissora desde a quarta série. Eram eles o Fabiano, o Ratinho, Gilson, Alessandro, Michele, Flávia, Sandrinha, Luciana, Luis Zeferino e outros que eram menos bagunceiros, mas que juntos completavam a galera do barulho, como o Luis , Edmilson, Cristian, Nego e a Juliana Vigatti.

Estávamos no meio do ano, e os professores não agüentavam mais a bronca, não conseguiam domar aquelas feras.

Lembro-me até hoje da professora Marlene, que dava aulas de Biologia. No meio da aula a Flávia resolveu se estranhar com a Michele, e até cadeiras voaram no meio da briga, as duas rolaram no chão e o motivo até hoje eu não sei direito, mas a pobre professora entrou em desespero e tentou apartar a confusão, depois foi buscar ajuda na Direção. A sala foi ao delírio, afinal briga de mulheres não deixava de ser um espetáculo. Mas devido a tantas confusões seguidas, os professores começaram a renunciar às aulas na nossa turma, e a dona Elaine teve que interceder dando a idéia de um julgamento popular para tirar os alunos que mais atrapalhavam no rendimento da sala.

As ameaças já começaram assim que o tal julgamento fora anunciado. Cada aluno seria responsável pelo voto que tiraria esses causadores de confusão, e todos deveriam dizer isso em voz alta perante os réus (imaginem o medo de muitos da sala, sabendo quem eram as encrencas e ser obrigados a dizer a verdade). A Tanícia era a mais covarde, a Flávia havia lhe dito que se votasse contra ela, receberia o troco na rua. Pobre dela, tão pequena e magrinha, tinha o apelido de Pulguinha.
O julgamento aconteceu no meio da aula, e o professor Adil foi convidado para ser o advogado de acusação (a parte ruim é que ele não conhecia a maioria dos alunos e, portanto, não tinha argumentos verdadeiros contra ninguém, mas isso não foi avaliado). Advogado para defesa nem foi cogitado, afinal éramos o mau exemplo da escola. A dona Elaine e a Zezé estavam presentes também. Uma grande roda foi feita com as cadeiras, a acusação ficou ao centro, e cada aluno deveria dizer quem gostaria que saísse da sala para a turma melhorar. Antes disso, o professor Adil rasgou o verbo e falou mal da sala, do quanto éramos mal-educados, sem responsabilidades, e não tínhamos senso do ridículo por agir como crianças de primário. (Muitos ali não mereciam ouvir tais palavras, mas isso também não foi avaliado.) O medo de todos estava presente em cada olhar...

Outra hora eu conto o final dessa história

domingo, 30 de março de 2008

Turma do 1 colegial D (sala da Ivone) - 1998
A galera estava incompleta, o povo faltou em peso nesse dia!
Aos manos, podem pular essa parte, pois já sabem de cor o significado de cada palavra.
Aos novos manos, saibam que na periferia usamos uma linguagem diferente do resto da cidade. É uma diversidade enorme de gírias que formam uma comunicação recheada de códigos, às vezes para facilitar às vezes para ocultar, uma linguagem própria que dá orgulho, às vezes.

Segue um pequeno dicionário para ninguém ficar perdido nas minhas idéias! Consulte, sempre que precisar!

A gíria dos "mano"

Abraçar idéia: mano não acredita em teoria..........abraça uma idéia.
Adiantar o lado: mano não ajuda alguém..........adianta o lado.
Agüentar: mano não rouba..........agüenta.
Amassos: mano não dá abraços..........dá uns amassos.
Apagar: mano não dorme..........apaga.
Aviãozinho: mano não encontra pessoas que levam e trazem..........encontra aviãozinho.
Avoados: mano não conhece pessoas distraídas..........conhece avoados.
Bagulho: mano não consome drogas..........fuma bagulho.
Bagulhos: mano não carrega coisas..........leva bagulhos.
Balada: mano não vai a festa..........vai pra balada.
Baseado: mano não fuma maconha..........fuma um baseado/ um béck.
Bem bolado: mano não mistura as idéias..........faz um bem bolado.
Bike: mano não tem bicicleta..........tem bike/ magrela.
B.O.: com mano não acontece ocorrências..........acontece b.o.
Bolado: mano não fica chateado/ abalado/ com pé atrás..........fica bolado.
Botar banca: mano não ostenta..........bota banca.
Brechas: mano não encontra aberturas..........encontra brechas.
Dar brecha: mano não deixa de ajudar nos melhores momentos..........dá brecha
Breja: mano não bebe cerveja..........toma breja.
Busão: mano não anda de ônibus..........pega busão.
Cabreiro: mano não fica bravo..........fica cabreiro.
Cabrito: mano não faz algo ilegal..........faz cabrito/ gato.
Cabuloso: mano não enxerga algo muito legal/ macabro..........enxerga algo cabuloso.
Cagüeta: mano não conhece delatores..........conhece cagüeta/ x9/ dedo duro.
Cair matando: mano não se aproxima..........cai matando/ chega junto.
Cair prá dentro: mano não entra..........cai prá dentro/ (drento).
Cair pro litoral: mano não vai para o Guarujá..........cai pro litoral.
Capotar: mano não cai..........capota.
Catar: mano não namora..........dá uns cata.
Chapado: mano não acha algo muito bom..........acha chapado/ maneiríssimo/ maneiro/ show de bola.
Chapar o coco: mano não bebe..........chapa o coco.
Charles Bronson: mano não conhece indivíduo matador, do tipo cara sangue frio, que atira primeiro e pergunta depois..........conhece Charles Bronson
Chepar: mano não lancha/almoça..........bate chepa (vira chepeiro).
Codinome: mano não tem apelido..........tem codinome/ vulgo
Colar: mano não chega num determinado local..........cola em algum lugar
Comédia: mano não acha algo engraçado..........acha comédia.
Correria: mano não possui negócios em andamento..........possui correria
Fazer correrias: mano não faz sacrifícios/ trabalhos difíceis..........faz correrias
Crocodilagem: mano não trai..........faz crocodilagem.
Curtir um som: mano não ouve música..........curte um som.
Cururu: mano não conhece pessoas sem moral / babaca/ metido a malandro, que fala mais do que faz/ otário..........conhece comédias/ cururu.
Dar área: mano não sai de um determinado local..........dá área.
Dar boi: mano que não puxa saco ou facilita as coisas..........é mano que não dá boi/ não dá mole.
Dar idéia: mano não dá confiança..........dá idéia.
Dar o toque: mano não cumprimenta..........dá o toque dos manos.
Dedo mole: mano não tem facilidade em matar..........tem o dedo mole.
Deixar no gelo: mano não esquece os acontecimentos..........deixa no gelo.
Destruir: mano não mata..........destrói/ dechava.
Disenteria: mano não tem diarréia..........tem disenteria.
Dois palitos: mano não tem atitudes muito rápidas..........tem em dois palitos/ 1 ,2.
Du caralho: mano não acha muito bom..........acha du caralho.
Embaçado: mano não passa por momento difícil/ ou acha algo difícil..........passa por momento embaçado/ acho algo embaçado.
Emboscada: mano não arma armadilha..........arma emboscada
Estalar o chicote: mano não briga..........faz o chicote estalar
Estiloso: mano não se veste bem..........fica estiloso.
Fazer miséria: mano não faz estrago..........faz miséria.
FDP: mano não conhece filho da puta.......... conhece FDP.
Ficar a fim: mano nunca fica apaixonado..........fica a fim.
Ficar na moral: mano não fica tranqüilo/ na dele..........fica na moral.
Ficar puto: mano não fica nervoso..........fica puto.
Ficar só o caldo: mano não fica cansado..........fica só o caldo.
Filmar: mano não observa as pessoas..........filma.
Firmeza: mano não faz algo legal..........faz umas parada firmeza.
Fissura: mano não fica ansioso..........fica na neura/ na maior fissura
Fita: mano não rouba..........faz fita / finta
Foder: mano não se dá mal..........se fode/ a casa cai.
Froid: mano não conhece pessoa problemática, complicada com a vida..........conhece pessoa froid
Fuder: para mano, quando algo deu errado..........fudeu.
Fudeu o barraco: para mano, quando tudo deu errado..........fudeu o barraco.
Furada: mano não extravia do caminho certo..........cai em furadas.
Gambé: mano não é parado por polícia..........é parado por gambé/ coxinha.
Gente boa: mano não é honesto/ bom..........é gente boa/ mano de fé/ humilde/ firmeza.
Gueto: mano não mora na parte crítica da periferia..........mora nos guetos.
Irado: mano não acha interessante..........acha irado/ bem loco.
Isqueiragem: mano não agita briga..........faz isqueiragem.
João sem braço: mano não se faz de coitado..........dá uma de João sem braço.
Lagartixa: mano não dança rebolando o corpo..........dança lagartixa.
Ligado: mano não presta atenção..........fica ligado.
Loki: mano não dá uma de bobo..........dá uma de loki.
Mancada: mano não magoa alguém..........dá mó mancada/ deixa a mó falha.
Manjado: mano não se torna suspeito..........fica manjado.
Maquinado: mano não fica armado..........fica maquinado.
Migué: mano não mente..........dá uma de migué.
Mina: mano não tem namorada..........tem mina.
Molhar a mão: mano não compra as pessoas..........molha a mão.
Muquiar: mano não esconde algo que não pode ser visto..........muquia.
Nada a ver: mano não diz palavras sem sentido..........diz coisas nada a ver.
Nas coxas: mano faz algo desleixado..........faz algo naquelas/ nas coxas.
Nóia: mano não conhece dependente de drogas..........conhece nóia.
Noiado: mano não é dependente de drogas..........é noiado/ está nóia.
Oitão: mano não tem revólver calibre 38..........tem oitão/ três oitão.
Pá de coisa: mano não faz muitas coisas..........faz uma pá de coisa.
Pagar de gatinho: mano não faz charme..........paga de gatinho/ marca presença.
Pagar mico: mano não passa vergonha..........paga mico.
Panguando: mano não fica viajando em pensamento..........fica panguando.
Panguão: mano não é bobo..........é panguão/ vacilão.
Passagem: mano não tem visita breve em algum local..........tá de passagem.
Passar o facão: empresa de mano não demite..........passa o facão.
Pega: mano não fuma..........dá uns pega.
Perifa: mano não mora na parte menos desenvolvida da cidade..........mora na perifa/ periferia.
Pesar nas idéias: mano não enche o saco..........fica pesando nas idéias.
Pés-de-pato: mano não conhece justiceiros..........conhece pés-de-pato.
Piaba: mano não leva tapinha..........leva piaba.
Pianinho: mano não fica quieto..........fica pianinho.
Pipoka: mano não é medroso, ou desiste de algo..........pipoka/ pipocou
Pivete: mano não foi criança..........foi pivete/ moleque.
Playboy: mano não conhece rapaz rico..........conhece playboy.
Prateado: mano não usa arma..........anda com prateado.
Q.R.U.: mano não resolve problemas..........resolve Q.R.U.
Quebrada: mano não mora em bairro..........se esconde nas quebradas/ na área.
Quebrar: mano não bate nas pessoas..........quebra.
Rala-peito: mano não vai embora..........rala-peito.
Rangar: mano não come..........ranga.
Renca: mano não tem muito..........tem renca.
Representa: mano não tem atitude..........representa.
Rolê: mano não dá voltas/ passeios..........dá uns rolê.
Sacar: mano não entende..........saca.
Sair na captura: mano não procura namorada..........sai na captura
Sangue nos olhos: mano não fica com ódio..........fica com sangue nos olhos.
Sangue no zóio: mano não fica com estado emocional explosivo/ reação violenta/ ou perde a cabeça antes de uma ação agressora..........fica com sangue nos zóio.
Sapecar balas: mano não dispara tiros em alguém..........sapeca bala.
Se ligar: mano não entende..........se liga.
Secada: mano não encara..........dá uma secada.
Subir: mano não morre..........sobe
Tirar: mano não faz desfeitas para alguém..........tira a pessoa.
Tirar racha: sangue na veia de mano não corre..........tira racha.
Trampo: mano não consegue um emprego..........arruma trampo.
Tretar: mano não briga..........treta.
Tretas: mano não procura encrencas..........arranja tretas.
Trocar idéia: mano não fala..........troca idéia.
Truta: mano não tem amigos..........tem uns truta/uns chegados/uns camarada/uns brothers/ uns mano.
Vacilar: mano não erra..........vacila.
Vazar: mano não vai embora..........vaza/ pinica/ cai fora.
Vida loca: mano não tem dificuldades no dia-a-dia..........tem vida loca.
Virar: quando algo dá certo para pessoas..........para mano vira.
Vital: mano não tem currículo..........tem vital / vitae.
Xavecar: mano não paquera..........xaveca.
Xavequeiro: mano não é paquerador..........é xavequeiro.
Zé povinho: mano não conhece pessoa que faz intriga..........conhece zé povinho/ candinha/ mexeriqueira.
Zóio de Thundera: mano não conhece invejosos..........conhece zóio de Thundera
Zuado: mano não tem coisa estragada..........tem coisa zuada,
Mano não é gente..........é mano.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Elvis não morreu

Mais uma rosa derramava o sangue ainda na flor da idade. Eis o sangue de mais um mano meu!

Elvis era um moleque esperto, de 16 ou 17 anos, curtia rock, e tocava numa banda chamada Metal Ícaros. Andava com um violão pra cima e pra baixo, depois comprou uma guitarra e já tocava pra caramba. De vez em quando parava em frente a Nossa Senhora de Fátima, igreja do bairro onde muitos se encontravam, e tentava tirar a nota de novas melodias. Os pais foram embora para Goiás, mas ele acreditava que o lugar dele era ali junto da galera que ele considerava como irmãos e principalmente por ter a certeza que não se adaptaria numa cidade menor no interior.

Por uns tempos andou “curtindo” a vida ao extremo, fumava, bebia, curtia várias baladas. Com a galera do rock freqüentou muito a Galeria do Rock no centro da cidade. Tava sempre com uma camisa preta da banda Angra, era quase sua marca registrada. A língua meio presa também era sua característica, chegava a gaguejar se ficava nervoso, mas não abaixava a cabeça para ninguém. Como a maioria dos jovens daqui, não acreditava que seria derrubado facilmente. Ele tinha muitos amigos, mas isso eu só descobri no infeliz dia!

Elvis adorava a brincadeira com seu nome: Elvis já morreu, Elvis não morreu. Todos cansaram de ouvir essas frases de sua boca. Era engraçado ter um amigo chamado Elvis que, ainda por cima, tocava guitarra e violão!

Por conta das correrias diárias, fazia tempo que eu não cruzava com esse mano, mas tava na memória sua cara de menino com medo! Era assim que eu sempre o via. Certa vez Nay fez uma peça de teatro na igreja, Elvis e sua irmã Sheila também participaram, pois às vezes freqüentavam o grupo de jovens. A peça, para variar, foi escrita por Nay e relatava o caso de um jovem que se envolvia com drogas, dívidas e acabava morrendo. Elvis era esse tal personagem chamado Gabriel. Conseguiram descolar até um caixão de madeira feito para as festas de haloween no velho Tenente. Um dos colegas tinha uma filmadora e o Elvis se enfiou dentro do caixão para representar a cena final. Parecia morto de verdade, isso dentro da igreja, ainda com as flores da última missa.
Tal cena nunca pareceu provável, pois ninguém do grupo se envolvia nas correrias. Mas depois desse tempo, Elvis e seus amigos sumiram da igreja. Nay vivia falando neles, que agora só queriam saber de farra, sabe-se lá o que andavam aprontando. O zé povinho já tava comentando. A imaginação dos fofoqueiros voava alto, se pá, já era até aviãozinho na língua desse povo!

Dizem que ele começou a se envolver com uma ex-mina de ladrão! Furada, e os chegados dele ainda advertiram, mas moleque novo, já viu, parece bobo quando se trata de mulher. A longa história que decorreu depois dos primeiros vacilos nem vou contar, vou direto à parte que gostaria que soubessem.
O Rodrigo, um dos meus manos, bateu lá em casa com aquela cara de pavor, branco que nem papel. Era um dia ensolarado, por volta das 13 horas; olhei para ele e já senti que vinha bomba.
- Notícia ruim, cara!
- Quem morreu mano? Foi só o que saiu da minha boca, já nervoso de imaginar quem podia ter sido dessa vez!
- Mataram o Elvis!

Putz, leitor, outra facada que levei! O Elvis não era tão próximo como o Lê, mas só por ser um mano querido da minha irmã já merecia mó consideração e revolta. É por isso que esse povo da periferia acaba se tornando tão forte perante tanta desgraça. São feridas que se abrem em diversas partes do corpo, cicatrizam, mas ficam lá sempre, para que possamos lembrar e ficar fortes perante as próximas que conseqüentemente virão.
- Como foi isso, Digão!
- Pegaram eles na covardia, irmão! Tava indo pro Tenente, e resolveu dar a volta pelo beco atrás do J.J. (outra escola do bairro), os meninos já tinham aconselhado para ele não andar por ali sozinho, mas ele não acreditou!
- Mas quem foi o vagabundo!?
-Ninguém sabe! Os moleques estão vendo ainda, disseram que isso não ia ficar barato não!
-Puta, cara, que merda, moleque novo, mó vida pela frente, não aproveitou nada ainda... Mas e aí, quando vai ser o enterro?

Elvis morreu! O Tenente ficou de luto e ninguém teve aula naquele dia. A brincadeira foi usada, pois não havia outras palavras. Os amigos acharam que era brincadeira de novo. Dessa vez não era!
- Amanhã à tarde. A família tá chegando de Goiás. Mas aí, Cassiano, os caras judiaram, bateram pra caramba no Elvis, no mínimo uns três covardes. Depois deram três tiros. Ele se arrastou até a casa do Silas para pedir ajuda, mas nem deu, foi levado pro açougue do Hospital Campo Limpo, e lá deu o último suspiro!

Peguei uma carona com uns manos, já era tarde, passava das cinco horas, uma daquelas tardes que se mostram sinistras quando alguém morre, o vento se ouve, o céu cheio de nuvens escuras anuncia a chuva próxima, todo mundo com cara de revolta e tristeza. Tava cheio o velho São Luiz, os amigos roqueiros compareceram em peso, todos de preto, com faixa na cabeça escrita Elvis. Pelos cantos a galera com os olhos cheios de lágrimas, puta tristeza bateu em mim, mas não chorei. Aproximei-me da sala de velório e os mais chegados estavam debruçados no caixão. Flores amarelas enfeitavam a pequena sala, e o pessoal da igreja ora cantava alguns hinos, ora fazia as orações em memória do menino. O caixão preto, provavelmente da prefeitura, tinha a camisa do Angra, banda predileta dele, por cima uma faixa da banda Metal Ícarus e a palheta dele. Não pude me aproximar de imediato para ver seu rosto, senti uma força que me segurou por alguns minutos. Como eu já devo ter dito em outra página qualquer, a morte não me desce ainda, não compreendo o seu significado e o que acontece depois! Recuso-me a acreditar que tudo vira fumaça e desaparece de repente!
Encarei todos ao redor, todos tinham ao menos uma lágrima escorrendo por entre o rosto. Resolvi ir à sala de velório ao lado, e lá estavam dois irmãos também assassinados, mas havia meia dúzia de pessoas em volta, provavelmente a família. Lá as pessoas não choravam, todos firmes, provavelmente aquelas mortes foram buscadas.

Voltei novamente para o velório e resolvi encarar aquela morte de frente. Me aproximei e somente o rosto de Elvis estava visível pela janelinha, aquele rosto branco agora sem vida nenhuma, com a pele rígida, coberta de hematomas, um olho roxo, a boca machucada. Era a prova do quanto foi espancado. E o pior de tudo, trazia o mesmo sorriso que carregou a vida inteira nos lábios. Mas o que era aquilo? Uma morte como a que ele sofreu, e um sorriso daquele? Aí eu chorei, irmão! Chorei porque duvidei que ele estivesse realmente morto, e que não o veria nunca mais, que não realizaria seus sonhos, que não conheceria o mundo de verdade, que ficou somente naquela periferia, nasceu, sobreviveu e já fora assassinado!

Que realidade desgraçada essa!

Já era tarde e os homens pediram para fechar o caixão. Os três amigos se aproximaram, e começaram a conversar com o corpo. Eles sorriam, prometiam algo para Elvis, choravam ao mesmo tempo, e todos de mãos dadas fizeram alguma jura, que não foi ouvida pelos demais presentes! A última vista em seu rosto e aquela multidão seguiu até a cova. Passamos no corredor de ossos, a vista por todo o cemitério, que estava situado no alto do São Luiz, portanto a visão era privilegiada. Alguns animais pastavam dentro do cemitério. Olha a condição do povo! Buraco já pronto, ao lado cinco covas do dia com flores ainda vistosas, as pequenas gotas já molhavam o rosto de todos os presentes. Alguns amigos olhavam pro céu com um sorriso nos lábios e uma lágrima nos olhos, acreditavam com certeza que ele já estava lá, e esperando por eles. Engraçado, mas todos ali acreditavam firmemente em Deus, e era a única coisa que os confortava. Bateram palmas, cantaram uma música do Legião Urbana, e aplaudiram novamente. Um pássaro apareceu do nada, passou no meio de nós e foi para bem alto e longe de todos. Alguns sorriram e com certeza tiveram o mesmo pensamento que eu. Era uma mensagem simplória de Elvis ao chegar onde quer que tenha chegado. A chuva continuou serena, os homens continuaram a jogar terra, um amigo estava em pranto. Era o rapaz que morava na mesma casa que ele e dizia o tempo inteiro:

- Eu te avisei tanto amigo! Por que você não me ouviu? Por que, cara?

Uma menina chorava muito ajoelhada e fazendo a cena que muitos estavam acostumados, pedindo para não jogar terra, que ele ainda podia estar vivo, que não era justo, que queria ir junto, e tantos outros desabafos que atormentavam sua cabeça. Cada um jogou uma porção de terra com a mão, algumas minas uma flor, e o coveiro fincou a cruz de madeira inscrita com o número de mais uma estatística. Uma coroa de flores ficou por baixo da faixa Metal Ícarus.

Todos, em silêncio, foram se retirando e retornando para o portão principal. Uns pegaram carona, outros o buzão mesmo, todos chegaram com um clima de: falta uma peça em nosso dominó, não dá para jogar essa partida!

Elvis não morreu! Um amigo gritou, e os outros sorriram.

Fui pra casa, e aquelas cenas do dia não me saíram por duas semanas da cabeça. Morte era sempre morte, mas cada velório tinha seu particular.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Essa turma estava enchendo a laje de um dos vizinhos, o seu Antonio, pai do Tampa!
Isso já faz um tempo, bem se vê pelas roupas fora de moda.

Bom dia jardim das Rosas


O Tiozinho era o sorveteiro do bairro quando eu era criança. A senhora esposa dele era uma velhinha que também vendia geladinhos na casa deles, e nos dias de calor toda a molecada arranjava umas moedas para se refrescar com os deliciosos geladinhos da dona Quitéria.

O sorveteiro era um cara bacana, porque conversava com todo mundo e no final da tarde passava cumprimentando a todos e às vezes até dava sorvete de graça para gente, aqueles que sobravam depois de um dia inteiro de trabalho, mas o mais intrigante era o jeito do tiozinho. Ele carregava no rosto o semblante de uma criança meio boba e sempre feliz, o sorriso nunca saía dos lábios, e o bom-dia nunca saía da boca, mesmo que fosse boa-tarde. Ele dizia com sua voz engraçada:

- Bom dia, amiguinho! Ou bom dia, menino! Bom dia, menina!

E isso era durante todo o percurso até chegar na casa dele. Era um senhor alto (quer dizer, era, porque hoje descobri que eu era muito pequeno, ele devia ter um metro e 75, no máximo), magro, de cabelos lisos e meio grisalhos, partidos de lado, meio corcunda pela altura mal administrada.

Ele dava bom-dia até para os cachorros, e todos gostavam muito dele, mas eu realmente acreditava que ele deveria ser louco, afinal, ninguém cumprimentava as crianças (os adultos achavam que não tínhamos sentimentos formados, ou então que não merecíamos o respeito deles).

Aliás, as pessoas do bairro não tinham o bom costume de dar bom-dia uns para os outros, davam um simples aceno de cabeça, e estava tudo bem. O tiozinho inovou o conceito desse cumprimento, e apesar de quase não o ver mais pelo bairro, o seu jeito de ser nunca me saiu da cabeça, e hoje eu faço o mesmo, cumprimento até os animais, e por incrível que pareça, às vezes tenho resposta, alguns cachorros também estranham e parecem me dizer, com seus olhares de suspeitos:
- Esse cara tá maluco, nem me conhece e fica puxando conversa, eu não vou dar bola!
E nisso o cachorro vira de costa e sai abanando o rabo e balançando a cabeça negativamente! (Eu sei que é difícil acreditar, mas isso é verdade).

O bom-dia é muito importante na vida das pessoas, digo isso porque agora vejo como ele muda o nosso dia. Começar a manhã com um bom-dia – Se ele for verdadeiro, é claro, porque se não for fica muito na cara para quem recebe também –, traz energias positivas de uma pessoa para a outra, está no sorriso e no olhar, e ter o dom de dar vários bons-dias com o mesmo espírito do primeiro não é para qualquer um, por isso tenho tanta admiração por esse senhor.
“Bom dia, Jardim das Rosas!”

O tiozinho é somente mais uma das figuras carismáticas e marcantes do bairro, assim como temos o Maluco Beleza, um cara que é doido de verdade e perambula pelo bairro há mais de uma década, sempre sujo, cantando músicas, dando jóia para uns que pagam a cachaça ou o cigarro de vez em quando na padaria Curitibana e mandando outros tomar no cu, quando o provocam para vê-lo ficar mais doido. Todos o conhecem, e quando vemos um maluco descendo a ladeira com ginga de Beto Barbosa (ele já usou muita droga na vida, e isso ajudou a acabar com os neurônios dele), o pessoal logo diz:

- Lá vem o Beleza, cuidado que às vezes ele tá de mau humor!

quinta-feira, 20 de março de 2008

Princesas do jardim

Quando elas passam os manos já preparam as cantadas, e as chamam de princesas, e elas abrem um grande sorriso.

Há dias em que a mulherada cai matando nos manos e o que as atrai pode ter vários motivos: Talvez a grana sem miséria, os carros novos, as motos poderosas, as festas, o poder que o olhar ou as palavras desses manos possuem sobre os outros, a chance de conseguir coisas com maior facilidade, a lábia de 71 que às vezes convence até que o Diabo é inocente, a carência familiar, a falta de estrutura dentro de casa, ou simplesmente pela aventura de sair com um mano fora da lei que diz com voz mansa enquanto a menina desfila pelas ruas:
- Bom dia princesa, como você é linda, hein!
Luíza, uma garota aqui do bairro, desde os 9 que planeja a sua festa de 15 anos. Os pais dela não poderiam gastar muito, o luxo não reinaria para a princesa Luíza, mas ela não ficaria sem o sonho tão esperado.
O local escolhido foi o salão de festa do prédinho da Cohab. Lá morava Marquinho, o namorado da Luíza. A mina é firmeza, convidou toda a galera, Ricardo, Jobson, Meg-Lu, Juninho, Enovi, toda a turma da escola, e a minha princesa Raquel.

Raquel era o oposto de Luíza, mas estava tão linda quanto; vestida de preto marcando o corpo num vestido até o joelho, cabelos presos deixando seu rosto de deusa à mostra, me fazia esquecer todas as suas má-criações. Se eu pudesse, caía de joelhos sem vergonha.
- Ah, seu eu pudesse!
Estava maravilhosa. Os marmanjos do bairro babavam, secando-a dos pés à cabeça.


Aquela noite foi inesquecível, parecia um desfile de moda, todos colocaram suas melhores roupas, para dar presença nas fotos. Nossa festa de gala. As minas de salto alto, os manos de social, até gravata colocaram, mas como não eram tão sérios, as gravatas possuíam um desenho animado; Tasmânia agora é moda, Pernalonga, Piu-Piu, tudo nesse naipe ilustrando as gravatas. O som maneiríssimo de todas as décadas, tocou de Charles Brow até o Raça Negra que reinava nas paradas. O sambinha no pé das minas chegava a ser engraçado porque muitos já curtiam rap. Luzes piscavam, muita cerveja e guaraná, buraco quente para encher a pança de quem não havia jantado, 98% dos que estavam ali (ninguém tem o costume de jantar antes de ir a uma festa).
Ricardinho embebedou-se até a alma, Juninho sem comentários, também não resisti, era dia de festa e todos deviam comemorar, arrisquei até dançar Bee Gees, que mico! Engraçado como todos criam coragem depois de alguns goles, desafiando perigos, isso pode ser fatal. Não me importei com nada nesse dia, há muito não me via tão corajoso e alegre, Raquel dava uns beijos em um cara, fiquei puto da vida, aquela mina tinha que ser minha e de mais ninguém. Fui até eles, empurrei o cara, peguei Raquel pelo braço, dei-lhe um beijo desentupidor de pia, e em seguida veio o tapa, seguido, é claro, da porrada do mano. Eu nem liguei, aquele beijo foi tudo para mim, nunca havia visto estrelas, eu nem senti a dor, nunca vi tantas estrelas juntas, estrelas do beijo, do tapa, mas não tantas como as da porrada. Sua boca macia e doce valeu pela porrada, estava tão tonto que não consegui levantar do chão, sem forças como um bobo, estirado e ainda por cima com um sorriso enorme estampado na cara. Os amigos foram chegando e me rodeando, riam, Ricardo soltou uma gargalhada, seguida da escandalosa de Carlitos, tão grande que voltei à consciência, o Lê me estendeu a mão e disse:
- Se não me engano, foi de joelhos que prometeu cair pela Raquel. Mulheres... A que ponto, Cassiano, levanta amigo!
Saí com o braço no ombro dele rindo do que fiz!